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O que esconde o suicídio?

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Em São Paulo, em novembro de 2009, uma lamentável ocorrência invadiu os espaços da mídia brasileira: um rapaz de 30 anos, desesperado, arremessou o filho de 2 anos do 18º andar do edifício onde residia a ex-mulher dele e, em seguida, se jogou. Segundo relatos de familiares e amigos, a razão teria sido a separação da esposa ocorrida há poucos meses.
 
Não vai muito longe, com a diferença de poucas horas entre um fato e outro, três rapazes em países diferentes foram protagonistas de fatos semelhantes e estarrecedores: um jovem de 28 anos, desempregado, no Alabama (EUA), tentou a carreira policial sendo reprovado no exame. Montou uma lista de pessoas e deu início à chacina: armado de dois rifles e uma arma semiautomática disparou cerca de 200 tiros, matando a mãe, a avó, um tio, um sobrinho e um primo. Perseguido, suicidou-se.
 
Numa cidadezinha alemã, próxima de Stuttgart, um jovem de 17 anos considerado um adolescente normal e inofensivo, numa manhã, vestiu-se de preto, pegou uma pistola e foi até o ginásio onde estudava e deflagrou a arma cem vezes. Matou 15 pessoas. Descobriu-se que gostava de uma garota que não correspondia ao seu amor. Perseguido pela polícia, ferido na perna, matou-se com um tiro.
 
E, em Goiânia (GO), um cidadão de 31 anos, desempregado, certo dia convidou a mulher e a filha de 5 anos para experimentarem um vôo panorâmico. No caminho para o aeroclube atacou a companheira, jogando-a na estrada com o carro em movimento. No aeroclube alugou um monomotor, conseguiu levantar vôo e ficou duas horas fazendo malabarismos perigosos até espatifar-se no estacionamento do principal shopping da cidade, morrendo com a filha.
 
Como explicar estas explosões de extrema violência contra si mesmos e contra os outros? Amores não correspondidos, desemprego, reprovação em concurso foram os desencadeadores destes terríveis dramas humanos, assim, anunciou a imprensa. Entretanto, sabe-se que um ato suicida não se manifesta, salvo exceções, repentinamente e provocado por um único motivo. Por trás de cada gesto de quem pratica a autodestruição, acumula-se uma grande quantidade de fatores que vai construindo, ao longo do tempo, a história de vida de quem acaba por optar por este doloroso caminho.
 
Estudos mostram-nos com clareza que existem os fatores causais e os desencadeantes do ato suicida. Os fatores causais são também chamados de causas primárias do suicídio e as razões desencadeantes são as denominadas causas secundárias. Perder um amor, o emprego, um familiar, ser reprovado num concurso podem ser os fatores desencadeantes do suicídio, mas as causas primárias, aquelas que se acumulam e crescem dentro de alguém são os verdadeiros responsáveis pelos motivos de saída de cena de alguém do espetáculo da vida.
 
Daí ser de extrema importância a nossa atenção para estar em permanente vigilância aos fatos que estão por trás do motivo que revela um indivíduo para não mais querer viver. Dentro dele há uma sofrida, antiga e complexa trama de problemas que, a qualquer momento, poderá impulsioná-lo para o desequilíbrio emocional ante uma dor imediata, recente, e levá-lo a deflagrar a “bala” que provocará a sua autodestruição.
 
Bartyra
CVV Recife/PE
 
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É preciso falar sobre bullying, depressão e suicídio, alertam especialistas

Bullying depressão suicídio
“Depressão é uma doença que faz a gente parar de enxergar a realidade que está a nossa volta. Por mais que alguém diga que você é bonita, bem-sucedida, nada disso adianta quando a gente está com esse defeito na cabeça, que diz exatamente o contrário”, conta Nauzila Campos, de 25 anos. A jornalista, advogada e modelo convive com a doença desde 2015.
 
No mês em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o aumento de casos de depressão, especialistas e pessoas em tratamento destacam a necessidade de debater o assunto e de lidar com a influência do bullying sobre a depressão e da depressão sobre o suicídio.
 
O número de pessoas que vivem com depressão, segundo a OMS, cresceu 18% entre 2005 e 2015. A estimativa é de que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades sofram com a doença no mundo. “No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos”, destaca a OMS.
 
“O problema da depressão é que, mesmo que ela não seja crônica, ela é um fantasma que fica ali na moita, à espreita, pronta para atacar novamente”, acrescenta Nauzila. Em uma das crises, a advogada ficou horas vagando pelas ruas. Hoje, ela usa as redes sociais para falar do problema.
 
A coordenadora da Comissão de Estudo e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria, Alexandrina Meleiro, destaca que a falta de conhecimento faz com que o assunto se torne tabu, por isso, é tão importante discutir o tema. “Só sabe o que é depressão quem já passou ou está passando [por isso]. Quem está de fora claro que tem preconceito: é por que não tem o que fazer, é por que é preguiçoso. Então, [o doente] tem mil rótulos.”
 
O quadro de diminuição de autoestima, tristeza, desânimo e perda cognitiva é resultado de alterações nos neurotransmissores. “Então, a pessoa fica mais lenta nas reações emocionais, no sono, no peso que pode alterar para mais ou para menos. Uma infinidade de sintomas vai expor o quadro depressivo”, conta Alexandrina.
 
Segundo a OMS, a depressão será em uma década a doença que mais vai afastar as pessoas do seu dia a dia.
 
Além das redes sociais, séries na internet, desafios virtuais e brincadeiras perigosas colocam esses assuntos em destaque.
 
Bullying
 
Rebeca Cavalcanti, de 24 anos, não tem boas recordações do primário. “Foi um período muito complexo para mim, e o tipo de bullying que eu sofri foi por causa das minhas características físicas. Hoje em dia em tenho um sério problema por causa da minha aparência”, lembra a estudante.
 
Segundo a psiquiatra, estudos mostram que casos de ansiedade e depressão podem estar relacionados ao bullying. “Ele vai massacrando a autoestima e isso favorece desenvolver alguns quadros, entre eles, de ansiedade e principalmente de depressão. Há estudos nacionais e internacionais mostrando que pessoas vítimas de bullying são mais suscetíveis a desenvolver quadros depressivos.”Assim como Rebeca, dezenas de crianças e adolescentes são alvo de piadas e boatos maldosos, além de serem excluídos pelos colegas. Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying, de acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Dados do relatório mostram que 17,5% dos alunos brasileiros, na faixa dos 15 anos, sofreram algum tipo de bullying “pelo menos algumas vezes no mês”.
 
Desde o ano passado, está em vigor a lei que obriga escolas e clubes a adotarem medidas de prevenção e combate o bullying por meio da capacitação de professores e equipes pedagógicas. A norma também estabelece que sejam oferecida assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores.
 
CVV
 
Leila conta que as pessoas que recorrem ao CVV querem falar de suas angústias, de seus problemas de uma forma sigilosa, de uma forma acolhedora. “[Agimos] para que ela se sinta à vontade ali para falar coisas que talvez de outra forma ela não teria com quem falar. Ela se sentiria julgada.”
 
Além das unidades em diversas regiões do país, o CVV atende pelo número 141.
 
Suicídio
 
De acordo com a OMS, o suicídio é atualmente um problema de saúde pública, sendo uma das três principais causas de morte, entre pessoas de 15 a 44 anos, e a segunda entre as de 10 a 24 anos. A cada ano, aproximadamente 1 milhão de pessoas tira a própria vida, o que representa uma morte a cada 40 segundos. O Brasil tem cerca de 10 mil registros anuais.
 
Estudos revelam que a maioria dos suicídios está ligada a transtornos psiquiátricos como explica a psiquiatra Alexandrina Meleiro.
 
Em meio a informações sobre desafios virtuais e suicídios supostamente associados a jogos o médico Daniel Martins de Barros, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que o tema seja conversado entre pais e filhos.
 
“Os pais têm o papel de ajudar os filhos a lidar com as informações que eles recebem do mundo. Não adianta você falar eu não vou conversar com o meu filho sobre isso, porque seu filho vai conversar sobre isso com outras pessoas. Então, é melhor você passar sua versão”, destacou o psiquiatra. “Às vezes, a criança e o adolescente não conseguem elaborar muito essa sensação de tristeza, mas ficam mais irritados, às vezes mais agressivos, mais inquietos. Começam a influenciar nos relacionamentos, no rendimento escolar. São mudanças que você só percebe estando atento, estando envolvido com seus filhos.”
 
E é possível reagir. “Eu sei o que é chegar ao fundo do poço e eu sei que é possível sair, não importa quão fundo você chegue. Eu sei o que é você acreditar que nada tem saída em relação àquele problema, que nada se pode fazer em relação à doença que você tem. Mas eu quero dizer que tem sim. É possível sair dessa”, disse a advogada Nauzila Campos.
 

Suicídio não é contagioso. Precisamos falar a respeito

suicídio e tabu falar
Escrever sobre suicídio não é fácil. Venho ensaiando esse post há algum tempo, mas nunca sei por onde começar. Com a minha própria história? Como vivi em um poço de desespero que pode levar alguém a realmente achar que tirar a própria vida é a solução? Ou começo com as estarrecedoras estatísticas de suicídio? Tipo: a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio? Ou: você sabia que METADE de TODOS os universitários contemplam o suicídio em algum momento?
 
Nenhuma das opções me permitiria achar o registro correto para falar de algo tão evasivo como o suicídio. Mas aí, na quarta passada, recebi uma mensagem de texto que finalmente me deu a voz para falar do assunto. E aquela voz estava muito irritada.
 
Eram 20h30, eu e meu marido estávamos no sofá assistindo séries gravadas quando o celular apitou. Temos um acordo de tentar não usar o celular depois de certa hora, a menos que estejamos esperando alguma notícia. Se fosse só uma mensagem, teria ignorado. Mas a urgência de várias mensagens chegando me fez descumprir nossa regra.
 
Era minha melhor amiga. Ela tinha acabado de descobrir que uma conhecida dela tinha cometido suicídio (eu não conhecia a pessoa). Minha amiga também não era muito próxima dela; tinham atuado juntas uma vez. Uma amiga da minha amiga, mais íntima, contou a notícia e estava devastada. Minha amiga estava no meio de um ensaio e não podia falar, mas precisava contar para alguém que pudesse entender. Que pudesse ajudá-la a consolar a amiga.
 
Apesar de ser um bastião de conhecimento sobre saúde mental, fui pega no contrapé. Estava sem palavras. Não há como se preparar para a notícia de um suicídio. Além de estar junto, ouvindo, dando um abraço, não há muito como consolar um amigo ou familiar que esteja lidando com esse tipo de perda.
 
O absurdo da situação é que, nos últimos dois meses, soube de três suicídios (e não estou falando dos vários que foram cobertos pela imprensa, como o de Leelah Acorn. Não conhecia pessoalmente nenhuma das vítimas. Sempre é um amigo de um amigo, mas a notícia sempre parece um soco no estômago, que me deixa sem ar e me leva às lágrimas. (Choro pela morte de desconhecidos porque sinto solidariedade pelas pessoas que têm problemas mentais e porque sei bem o que é esse buraco negro de tristeza.)
 
Mas, naquela quarta-feira, alguma coisa estava diferente. Talvez porque minha melhor amiga estava perturbada, ou talvez porque essa era a terceira pessoa. O fato é que eu estava puta da vida.
 
Estava puta porque alguém estava sofrendo tanto a ponto de achar que precisava tirar a própria vida. Estava puta porque elas estavam tão desesperadas que achavam que a morte era uma alternativa melhor que a vida. Estava puta porque essas pessoas claramente não estavam recebendo a ajuda que precisavam ou mereciam. Estava puta da vida que as pessoas diriam que “jamais esperavam” algo assim. Estava puta porque o suicídio não deveria acontecer, mas parece continuar acontecendo, se repetindo.
 
Apesar de todos os avanços na conscientização sobre problemas mentais, o suicídio ainda é uma questão envolvida num manto de silêncio e segredo. Ele às vezes é tratado como uma doença “contagiosa”, como se você pudesse contraí-la só de falar seu nome.
 
Talvez o “contágio do suicídio” se dê não por causa do ato em si, mas porque ninguém queira falar do assunto. Ninguém quer falar que talvez já tenha pensado em se matar, porque é desagradável e mórbido. Ou talvez porque tenha um parente que cometeu suicídio e o assunto é tabu. Ou talvez porque o suicídio só traga muita tristeza, mesmo que eles não conheçam a pessoa.
 
Não há maneiras fáceis de falar de suicídio, porque é difícil explicar como alguém possa pensar que a morte é uma solução viável para seus problemas. Como alguém que já pensou seriamente em vários jeitos de morrer, ainda tenho dificuldade de articular o suicídio. É uma questão complexa e confusa porque vai contra um dos nossos instintos mais básicos: a autopreservação.
 
A questão é que o suicídio nunca é sobre a morte, mas sim sobre o desejo de que a dor acabe. É querer desaparecer. É querer que seu problema, qualquer que seja, suma. Se você nunca lutou contra depressão, ansiedade, síndrome do estresse pós-traumático, transtornos alimentares ou qualquer outro tipo de doença mental, é difícil entender essa constante e aparentemente interminável dor psíquica. É uma dor que te segue como uma sombra quando você está acordado, uma assombração quando você está dormindo. Não há como fugir.
 
Além disso, é difícil falar de suicídio por causa dos mitos que cercam o assunto. Tenho certeza que algum pesquisador realizou estudos com números, mas já passei por situações sociais o suficiente para saber como as pessoas podem ser idiotas quando se trata de saúde mental e suicídio.
 
Estava numa festa no verão passado quando a conversa enveredou por esse tema: suicídio, autodestruição e saúde mental. Não sei como ou quando começou a conversa, mas foi de repente. Me preparei para o impacto.
 
“Dizem que é um pedido de ajuda.”
 
“Eles querem chamar a atenção.”
 
“Bom, dizem que pela direção dos cortes dá para saber a diferença entre uma pessoa que quer se mutilar e um suicida.”
 
“Quão idiota você precisa ser para cagar seu próprio suicídio?”
“Entendo quando alguém pula na frente do metrô – mas todo mundo sabe que tomar um vidro inteiro de analgésico só vai te deixar doente.”
 
Esses comentários foram disparados com o acompanhamento de queijos e vinhos, diante de completos desconhecidos. Essa é a estupidez e indiferença que acompanha as discussões sobre suicídio. Ignorância e insensibilidade dominaram a conversa.
 
Permita-me desmistificar algumas coisas sobre automutilação e suicídio: as duas coisas não estão intrinsecamente relacionadas. Só porque você se corta não quer dizer que você queira se matar. Tentar o suicídio ou se mutilar não é um “pedido de ajuda” e não é uma maneira de chamar a atenção.
 
As pessoas que fazem esse tipo de coisa estão doentes, como quem sofre de diabetes ou câncer, e simplesmente não sabem lidar com seus sentimentos ou com o mundo em que vivem. (A Associação Canadense de Saúde Mental derruba outros mitos sobre suicídio.)
 
Isso foi o que tive vontade de falar naquela festa. Mas, depois de aguentar aquelas palavras em silêncio, saí às lágrimas.
Não se trata de não falar de suicídio por acharmos que ele vai ser contagioso, mas precisamos saber COMO falar do assunto. Precisamos ter sensibilidade com nossa audiência. Precisamos ter consideração pelas experiências dos outros. Precisamos ser gentis e compreensivos.
Suicídio desafia qualquer lógica e não é um assunto fácil de abordar, mas precisamos falar do assunto. Ou então todas essas mortes terão sido em vão.
 

Suicídio: como falar sobre o ato sem promovê-lo

suicídio e mídia
As buscas pela palavra “suicídio” no Google aumentaram 100% no Brasil na terceira semana de abril, na comparação com o mesmo período de 2015. A empresa também registrou aumento repentino na procura por expressões como “suicídio indolor” e “suicídio rápido”.
 
Neste mesmo mês, que marcou o lançamento no país da série 13 Reasons Why – produção da Netflix sobre uma adolescente que registra em áudio os motivos que a levaram a se suicidar -, houve um boom nas buscas por imagens relacionadas a suicídio.
 
Abril também trouxe notícias sobre suicídios consumados e tentados em diferentes Estados do país, como Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraíba. Em alguns casos, a polícia investiga possível relação com um jogo virtual chamado Baleia Azul, que estaria induzindo adolescentes a automutilações e ao suicídio.
 
Os casos reacenderam a discussão sobre como tratar temas polêmicos sem incentivar imitações no mundo real, o chamado “efeito Werther”, referência a um livro do século 18 que desencadeou uma onda de suicídios na Europa.
 
Falar sem promover
 
Para a psicóloga Karen Scavacini, coordenadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, não falar sobre suicídio pode ter um efeito tão devastador quanto falar de maneira inadequada.
 
“Quanto maior o silêncio e segredo em torno de um assunto tabu, pior para quem lida com ele. Poder falar e contar a história pode ter um efeito curativo em quem lê e em quem escreve”, defende Karen.
 
Autora de Mentes Depressivas – As Três Dimensões da Doença do Século (editora Globo), a psiquiatra Ana Beatriz Silva menciona a onda de suicídios atribuída ao lançamento do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra de Goethe de 1774 em que o protagonista se mata após um amor não correspondido.
 
Como reação, o livro foi recolhido e proibiu-se a discussão sobre o suicídio por acreditar que seria algo que incitasse a prática.
 
“Estima-se que 90% dos suicídios poderiam ser prevenidos. Isso faz pensar que esse preconceito histórico em falar sobre suicídio não ajudou a prevenir essas mortes”, diz Silva, citando estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS).
 
Silva avalia que os padrões da mídia ao relatar casos de suicídio também não contribuem para resolver esse problema social.
 
“Só falamos em suicídio quando um famoso se mata. Não se pode glamorizar um suicídio, transformar o suicida em herói. Um suicídio é um ato de desespero”, diz ela, para quem relatar a trajetória de sofrimento da pessoa é mais relevante do que informar, por exemplo, métodos empregados no ato.
 
Para Scavacini, do Instituto Vita Alere, apresentar alternativas e divulgar locais ou formas de se obter ajuda é outro meio de falar de suicídio com maior atenção à prevenção.
“Se o relato indica ao final onde a pessoa pode receber ajuda, isso se transforma numa rede de cuidado. Muitas pessoas estão tão perdidas e impactadas que mesmo uma sugestão de caminho a seguir faz grande diferença”, orienta.
 
Catarse coletiva
 
Para a professora de Comunicação da Universidade Federal Fluminense Renata Rezende, o excesso de referências sobre suicídio, com aumento repentino na circulação de relatos na internet, é exemplo de uma “catarse coletiva”: impacto amplificado, nas redes sociais, de assuntos e práticas que são objeto de tabu.
 
São assuntos, diz ela, geralmente ligados à esfera do segredo, do proibido e que, por isso, despertam a curiosidade.
Rezende afirma que o aumento do interesse pelo suicídio não significa que a prática esteja sendo mais estudada. Pode ser, por exemplo, que a tendência seja apenas um desabafo de pessoas tocadas de algum modo pelo assunto.
 
Daí, diz a professora, a importância de observar como essas catarses se manifestam.
“Muitas vezes, na falta de conversar com um amigo ou procurar tratamento psicológico, o usuário faz sua catarse no espaço que tem: seu perfil nas redes sociais”, afirma.
 
Algo semelhante, considera Rezende, ocorre com a relação com a morte. “Com as redes sociais, as pessoas começaram a falar mais sobre morte, a fazer memoriais digitais para amigos e parentes, falar das suas dores”, diz.
 
‘Gatilhos’
 
Para a psicoterapeuta Alessandra Ramasine, voluntária há sete anos do Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço de apoio emocional e prevenção do suicídio, usar as redes sociais como “mural” de desabafos nem sempre é uma boa ideia, seja para quem relata ou lê.
 
“Para relatos de experiências, especialmente as doloridas e violentas, é necessário um ambiente seguro, de acolhimento para dores e memórias”, afirma Ramasine. “Do mesmo modo, esses relatos causarão impactos e consequências que nem sempre poderão ser administradas individualmente.”
 
Impactos negativos em quem lê, ouve ou assiste a reproduções de violência, sexo ou morte, desencadeando fortes processos emocionais complexos, são chamados de “gatilhos”.
“Uma cena de suicídio pode causar muitos impactos na vida de um jovem por meio do gatilho, especialmente quando esses jovens estão fragilizados, angustiados e perdidos nas questões cotidianas, sem apoio e orientação, desconectados com a vida”, afirma Ramasine.
 
Segundo ela, jovens que enfrentam falta de oportunidades de desenvolver um projeto de vida, de planejar o futuro e construir identidade por meio de autoconhecimento, autoestima e autoconfiança podem ser os mais afetados.
 
Nesse sentido, a psicoterapeuta diz ver aspectos positivos e negativos na série da Netflix sobre suicídio. É útil ao lançar um alerta sobre o problema a pais, professores e amigos, mas prejudicial ao retratar o ato de forma extremamente realista.
Renata Rezende, da UFF, sugere que quem publique relatos em redes sociais sobre suicídio também tome cuidados com o leitor.
 
O termo “Trigger warning” (aviso de gatilho, em português), por exemplo, tem sido usado na internet, como em blogs feministas, na introdução de textos com relatos de vítimas de estupro.
“A importância desse aviso é prevenir e avisar que os assuntos abordados podem desencadear processos emocionais complexos, dependendo do modo de recepção de quem os assiste ou consome”, afirma a professora.
 
Mostrar ou não?
 
No Brasil, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10%, segundo dados do Mapa da Violência 2017. O estudo é publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.
 
Para Ana Beatriz Silva, como o suicídio normalmente está associado a múltiplos fatores, físicos, sociais e de personalidade, uma cena só será um fator desencadeante caso a pessoa apresente “um quadro de alteração de comportamento, principalmente a depressão.”
 
A psiquiatra disse ter notado um aumento na procura por serviços psicológicos em sua clínica após a “catarse coletiva” motivada pela discussão cultural sobre suicídio. Segundo ela, a maior parte de seus pacientes adolescentes fez questionamentos sobre suicídio motivados pela série da Netflix.
 
“Eles me perguntavam: ‘Qualquer um pode se suicidar?’ ‘Como uma pessoa se deprime?’. Ou seja, para aqueles que tem contato com uma ajuda psicológica ou que não apresentam uma alteração comportamental, a série foi capaz de despertar uma curiosidade positiva”, diz.
 

Depressão na adolescência é grave; veja sintomas e como ajudar

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A adolescência é uma fase marcada por muitas mudanças, hormonais e corporais. Durante esse período, o corpo muda e as ideias também. Como tudo ocorre ao mesmo tempo, é normal que aconteçam conflitos internos e externos. Somado a isso, existem questões como expectativas acadêmicas e a busca por aceitação pelo grupo social.
 
Na sociedade contemporânea ocidental, a adolescência é definida e formada por um complexo jogo de forças biológicas, culturais, econômicas e históricas. Esse estado ao mesmo tempo transitório e demorado que pode chegar a durar uma década ou mais é um estado diferenciado no qual o jovem não é adulto inteiramente, nem criança, mas compartilha desafios, privilégios e expectativas de ambas as épocas. A adolescência é um período de paradoxos em que encontramos maturidade física e sexual, sem ter-se alcançada ainda a maturidade emocional e cognitiva. Alguns jovens não conseguem atravessar esse período com a devida saúde mental.
 
A depressão em adolescentes é um grave problema de saúde que causa uma persistente sensação de tristeza e perda de interesse nas atividades diárias. Afeta os pensamentos, sentimentos e comportamentos dos adolescentes, e pode causar problemas emocionais, funcionais e físicos.
 
Embora a depressão possa ocorrer a qualquer momento da vida, os sintomas nesta fase da vida podem se expressar de modo diferente que na fase adulta, fazendo com que os familiares muitas vezes confundam com as próprias mudanças emocionais características deste ciclo de vida, dificultando inicialmente a identificação de uma situação de adoecimento.
 
Segundo a psiquiatra Ana Taveira, médica do Hospital Santa Mônica “é importante ressaltar que depressão é diferente de tristeza comum, e não é um sinal de fraqueza ou algo que possa ser superado com força de vontade – pode ter graves consequências e requer tratamento”. O tratamento inclui acompanhamento médico e psicológico.
 
 
Sintomas
 
Os sinais e sintomas de depressão na adolescência incluem uma mudança da atitude e comportamento prévios do adolescente que pode causar sofrimento e problemas significativos na escola ou em casa, nas atividades sociais ou em outras áreas da vida e variam em sua gravidade. Os sintomas mais comuns são:
 
– Tristeza, que pode incluir choro sem razão aparente;
 
– Desesperança ou sensação de vazio;
 
– Humor irritado;
 
– Frustração ou sentimentos de raiva, mesmo em questões pequenas;
 
– Perda de interesse ou prazer em atividades antes consideradas prazerosas;
 
– Perda de interesse ou conflito com familiares e amigos;
 
– Baixa autoestima;
 
– Sentimentos de inutilidade ou culpa;
 
– Fixação em falhas passadas ou culpa exagerada;
 
– Autocrítica exacerbada;
 
– Extrema sensibilidade a rejeição ou a falha, necessidade de excessiva reafirmação;
 
– Problemas para pensar, concentrar-se, tomar decisões, queixas de memória;
 
– Sentido contínuo de que a vida e o futuro são sombrios;
 
– Pensamentos frequentes de morte ou suicídio.
 
Mudanças no comportamento:
 
– Cansaço e perda de energia;
 
– Insônia ou sono em excesso;
 
– Alterações no apetite – diminuição do apetite e perda de peso, ou aumento de apetite e ganho de peso;
 
– Uso de álcool ou drogas;
 
– Agitação ou inquietação – lentificação da fala ou dos movimentos, movimentos repetitivos e sem sentido;
 
– Queixas frequentes de dores no corpo, sem explicação aparente, incluindo dores de cabeça, que podem incluir visitas frequentes à enfermaria da escola ou idas a prontos-socorros;
 
– Isolamento social;
 
– Mau desempenho escolar ou frequentes ausências da escola;
 
– Aparência negligenciada;
 
– Comportamentos arriscados, ou outros comportamentos agindo fora do padrão;
 
– Autoagressão – por exemplo, cortar-se, queimar, perfurar ou tatuar;
 
– Fazer um plano de suicídio ou uma tentativa de suicídio.
 
O que é normal e o que não é:
 
Pode ser difícil dizer a diferença entre altos e baixos que são apenas parte da adolescência dita normal, ou perceber limites do início do adoecimento. O diálogo aberto é a melhor forma de saber se ele ou ela consegue ser capaz de gerenciar sentimentos desafiadores, ou se a vida parece esmagadora.
 
Não se sabe exatamente o que causa a depressão, mas várias questões podem estar envolvidas. Incluem:
 
Química biológica: Os neurotransmissores são substâncias químicas cerebrais de ocorrência natural que transportam sinais para outras partes do cérebro e do corpo. Quando esses produtos químicos estão anormais ou prejudicados, a função dos receptores nervosos e sistemas nervosos mudam, levando à depressão.
 
Hormônios: Alterações no equilíbrio do corpo de hormônios podem estar envolvidos em causar ou desencadear depressão.
 
Genética: A depressão é mais comum em pessoas cujos parentes de sangue também têm a condição.
 
Traumas na primeira infância: Eventos traumáticos durante a infância, como abuso físico ou emocional, ou perda de um pai, podem causar alterações no cérebro que torna uma pessoa mais suscetível à depressão.
 
Padrões de pensamentos negativos aprendidos: A depressão no adolescente pode estar ligada à aprendizagem de se sentir impotente – em vez de aprender a se sentir capaz de encontrar soluções para os desafios da vida.
 
A depressão não tratada pode resultar em problemas emocionais, comportamentais e de saúde que afetam todas as áreas da vida do adolescente. Complicações relacionadas à depressão na adolescência podem incluir, por exemplo:
 
– Abuso de álcool e drogas;
 
– Problemas acadêmicos;
 
– Conflitos familiares e dificuldades de relacionamento;
 
– Envolvimento com o sistema de justiça juvenil;
 
– Suicídio.
 
Se os sintomas da depressão continuarem ou começarem a interferir na vida do adolescente, fale com um médico para tratar o adolescente. O médico de família ou pediatra de um adolescente é um bom lugar para começar. A escola de seu filho pode recomendar alguém.
 
Os sintomas de depressão não vão melhorar por conta própria – e eles podem piorar ou levar a outros problemas se não tratados. Adolescentes deprimidos podem estar com risco de suicídio, mesmo se os sinais e sintomas não pareçam ser graves.
 
Se você é um adolescente e você acha que pode estar deprimido – ou você tem um amigo que pode estar deprimido – não espere para obter ajuda. Converse com um médico, ou o psicólogo da escola. Compartilhe suas preocupações com seus pais, um amigo íntimo, um líder espiritual, um professor ou alguém em quem você confia.
 
O diagnóstico de depressão é basicamente clínico, ou seja, um Psiquiatra qualificado, especialista em psiquiatria da Infância e Adolescência, examinará o adolescente, ouvindo suas queixas, seus sintomas, a descrição de seu comportamento atual, rendimento escolar, relacionamentos interpessoais, etc.
 
A participação da família para o diagnóstico é fundamental, complementando as observações, o histórico de vida pessoal, desenvolvimento desde nascimento, infância até os dias atuais, vida acadêmico, comportamentos, histórico genético de doenças da família, dentre outras informações.
 
O Psiquiatra poderá realizar exame físico do paciente, solicitar alguns exames laboratoriais (sangue, urina, etc.), de imagem (tomografia, ressonância) e avaliação neuropsicológica (testes realizados por psicóloga especialista) para complementar o diagnóstico, ou elucidar dúvidas.
 
A indicação do tratamento depende do tipo e gravidade dos sintomas do adolescente. Na maioria dos casos, o tratamento ambulatorial, incluindo consultas médicas regulares com o Psiquiatra, associado a psicoterapia, realizada por um psicólogo(a) capacitado, serão eficazes. Se seu filho adolescente tiver depressão grave, ele ou ela pode precisar de uma internação hospitalar.
 
Psicoterapia
 
A psicoterapia, também chamada de aconselhamento psicológico, é fundamental para o tratamento da depressão. Diferentes tipos de psicoterapia podem ser eficazes para a depressão.
 
A psicoterapia pode ser feita individualmente, com membros da família ou em grupo. Através de sessões regulares, o adolescente pode:
 
– Entender fatores desencadeantes da depressão;
 
– Aprender como identificar e fazer mudanças em comportamentos ou pensamentos distorcidos ou negativos;
 
– Explorar relacionamentos e experiências;
 
– Encontrar maneiras melhores de lidar e resolver problemas;
 
– Aprender a definir metas realistas;
 
– Recuperar uma sensação de bem-estar e controle;
 
– Aprender a lidar com sentimentos como frustração e raiva.
 
Quando obter ajuda de emergência
 
O suicídio é frequentemente associado à depressão. Se você acha que seu filho ou você pode se machucar ou tentar o suicídio, procure um serviço de emergência local imediatamente.
 
Considere também estas opções se você está tendo pensamentos relacionados a morte:
 
– Ligue para o seu especialista em saúde mental;
 
– Procure ajuda do seu médico de cuidados primários ou de outro profissional de saúde;
 
– Procure um amigo próximo ou amado;
 
– Entre em contato com um líder espiritual ou alguém em sua comunidade de fé;
 
– Se um ente querido ou amigo está em perigo de tentar suicídio ou fez uma tentativa;
 
– Certifique-se de que alguém fique com essa pessoa;
 
– Ligue para o número de emergência local 190 ou imediatamente;
 
– Ou, se você puder fazê-lo com segurança, leve a pessoa para a sala de emergência do hospital mais próximo.
 
Nunca ignore comentários ou preocupações sobre suicídio. É fundamental sempre tomar medidas para obter ajuda.
 
Em algumas situações uma hospitalização torna-se necessária, especialmente em quadros depressivos graves, onde há risco de suicídio, automutilação, pensamentos de culpa intensos, ou pensamentos irreais. Ou ainda associação ao uso de álcool e/ou e drogas. Perda de peso significativa e insônia persistente também são indicações que devem ser consideradas.
 
A internação hospitalar é um tratamento realizado por uma equipe multiprofissional. Além dos cuidados médicos e de enfermagem especializada 24 horas, fazem parte da equipe psicólogos, terapeuta ocupacional, educador físico, assistente social, nutricionista, dentre outros. Todos os profissionais estão empenhados em garantir a segurança e o bem estar do adolescente e de sua família. Além disso, garante uma melhora mais rápida e um planejamento terapêutico pós-alta.
 
Certifique-se de que você e seu adolescente compreendam os riscos, bem como possíveis benefícios se o seu adolescente adotar a terapia alternativa ou complementar. Não substitua o tratamento médico convencional ou a psicoterapia pela medicina alternativa. Quando se trata de depressão, tratamentos alternativos não são um substituto para os cuidados médicos.
 
Exemplos de técnicas que podem ajudar no tratamento da depressão incluem:
 
– Acupuntura;
 
– Técnicas de relaxamento, como a respiração profunda;
 
– Ioga ou tai chi;
 
– Meditação;
 
– Massagem terapêutica;
 
– Musicoterapia;
 
Confiar somente nestes métodos geralmente não é suficiente para tratar a depressão. Mas eles podem ser úteis quando usado, além de medicação e psicoterapia.
 

Corey Taylor: “Chester Bennington e Chris Cornell não eram covardes”

suicídio como dor
Quem o acompanha de perto sabe que Corey Taylor (Slipknot, Stone Sour) é uma pessoa muito envolvida em assuntos relacionados à saúde mental, tendo já comentado várias vezes sobre depressão, suicídio e muitos outros tipos de problemas.
 
Agora, o músico deu uma entrevista para a Loudwire e entrou em detalhes sobre o que pensa a respeito das trágicas mortes de Chester Bennington e Chris Cornell, que recentemente cometeram suicídio.
 
Embora muitos (como um dos guitarristas do KoRn) tenham se referido aos músicos como “covardes” por cometerem um ato desses, Taylor não concorda com o rótulo:
 
Chamá-los de ‘covardes’ é uma maneira muito imatura de encarar a situação. É a forma simples de olhar para isso porque não faz você encarar o quão sério esse problema é. É fácil para alguém rotular pois isso é uma forma de virar suas costas e fingir que é algo que nunca aconteceu com eles, quando por dentro você está machucado. Pessoas que lutam contra depressão estão quase sempre em um estado constante de dor.
 
Ele adicionou:
 
É uma tragédia. Isso não os torna covardes. Eu já ouvi gente dizer algo do tipo, ‘Isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Isso sempre tava marcado pra acontecer’. Eu fiquei tão puto ouvindo isso. Suicídio não deveria ser uma conclusão precipitada.
 
E então, o músico mandou uma mensagem para as pessoas que possam estar sofrendo com problemas parecidos:
 
Você não está sozinho. Nenhuma pessoa por aí que sente isso está sozinha. É importante saber disso.
 
As palavras do músico são completamente verdadeiras. Se você está passando por momentos difíceis e precisa de alguém para conversar, conheça o trabalho do CVV, o Centro de Valorização da Vida.
 
O CVV realiza apoio emocional e trabalha para prevenção de suicídios, contando com várias pessoas disponíveis 24 horas para conversar com você sobre qualquer tipo de assunto — sob total sigilo.
 
Caso interesse, você pode contatar o CVV ligando para o número 141, por Skype, Chat Online, Email ou então indo a um dos postos de atendimento, cuja lista completa você pode encontrar por aqui.
 

Não é só a depressão que leva ao suicídio

SAO PAULO, BRAZIL - MAY 13: Chester Bennington singer member of the band Linkin Park performs live on stage at Autodromo de Interlagos on May 13, 2017 in Sao Paulo, Brazil.(Photo by Mauricio Santana/Getty Images)
Quando uma pessoa famosa se mata, é comum vermos notícias relacionando o suicídio à depressão. Intuitivamente, tendemos a pensar que uma pessoa vai se matar por estar deprimida. Mas isso é verdade em termos.
 
Um dos mais importantes periódicos em psiquiatria, o British Journal of Medicine, publicou na década de 90 um grande levantamento sobre suicídio e diagnóstico psiquiátrico. Com exceção da demência, do retardo mental e da agorafobia (uma espécie de medo de sair de casa), todos os diagnósticos psiquiátricos tiveram uma taxa de mortalidade por suicídio muito maior que a da população sem diagnóstico.
 
Ou seja, o risco de suicídio está muito associado à presença de basicamente qualquer diagnóstico psiquiátrico. Não obstante, a maior taxa de mortalidade por suicídio foi observada para a dependência de sedativos (ansiolíticos). Logo depois vinham a anorexia nervosa, a depressão, e depois outros quadros de humor (incluindo o transtorno afetivo bipolar) e psicoses reativas. Esses são os diagnósticos que mais matam por suicídio, por assim dizer.
 
Outra publicação também da década de 90, desta vez do American Journal of Psychiatry, descreve que dos 229 suicídios analisados, a maior parte das pessoas tinha depressão, correspondendo a 39%. Não obstante, 19% tinham distúrbios relacionados ao uso de álcool, 5% transtornos relacionados ao uso de outras substâncias, e 9% tinham algum diagnóstico de personalidade. E havia 2% que não tinham diagnóstico psiquiátrico.
 
Assim, apesar de a anorexia nervosa ser mais “letal” do que a depressão neste sentido, há mais deprimidos que cometem suicídio pelo fato de a depressão ser muito mais comum do que a anorexia.
 
Mas quando falamos de Chester Bennington, tendemos a analisar as “letras depressivas” de suas últimas músicas e falamos só da depressão. Por que não falar dos outros diagnósticos, ou dos transtornos mentais em geral?
 
Sabemos que muito comumente músicos e outros artistas têm problemas relacionados ao uso de drogas. Chester, por exemplo, começou a usar maconha cedo em sua vida, passando depois rapidamente para a cocaína e a metanfetamina.
 
Chester também sofreu abuso sexual dos sete aos 13 anos de idade. Assim, temos que falar da depressão, mas também da dependência química, dos transtornos de personalidade, do transtorno bipolar, do transtorno de estresse pós-traumático, de outras questões decorrentes do abuso sexual na infância, e assim por diante.
 
Ou seja, focar apenas na depressão ou mesmo no uso de drogas como causa do suicídio é meramente inferencial, assim como qualquer discussão diagnóstica “à distância”. Não se pode saber ao certo qual questão de saúde mental em específico levou o cantor ao suicídio. Assim como só ele sabia a dor que o levou a tal atitude triste e violenta.
 
Por último: os artistas se matam mais? Sim. Diversos levantamentos já mostraram que eles cometem mais suicídios. Basta ver a extensa lista de suicídios recentes que ocorreram, entre eles Robin Williams e Chris Cornell.
 
Diversos fatores foram aventados para essa associação. O jogo de expectativas e frustrações ao compor e apresentar uma obra própria ao público. A exposição da própria vida naquilo que produz. O “reviramento” de histórias pessoais difíceis, de sentimentos complicados e de angústias para a produção artística. A gangorra emocional que muitas vezes está envolvida no processo de criação. E o consumo de drogas que muitas vezes é usado para amplificar essa gangorra, em uma busca por novidade e por emoção que muitas vezes se torna patológica.
 
Em suma, a morte de Chester deve ser um alerta ao suicídio e aos distúrbios mentais em geral, e também à questão do abuso sexual na infância, ainda um tabu para muitos.
 
Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar redes de apoio disponíveis.
 

Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA?

crianças e suicídio EUA
De acordo com dados divulgados na semana passada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças do governo americano, as mortes de meninas entre 15 e 19 anos por suicídio atingiram um recorde em 40 anos – e dobraram entre 2007 e 2015, com 5,1 casos para cada 100 mil.
 
O fenômeno atinge também crianças e adolescentes do sexo masculino, cujas mortes ainda acontecem em maior número, mas crescem em ritmo menos acelerado: 30% no mesmo período (são 14,2 casos para cada 100 mil), segundo o órgão oficial.
 
Em números absolutos, em 2015, foram registrados 524 suicídios de meninas e 1.537 de meninos entre 15 e 19 anos.
Outro relatório apresentado recentemente no Encontro Anual de Sociedades Pediátricas dos EUA aponta que as internações de menores de idade por pensamentos ou tentativas de suicídio dobraram entre 2008 e 2015.
 
O estudo se focou em crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos e, novamente, apontou que o grupo que mais registrou aumento nas internações é o das meninas – que atualmente respondem por 2 em cada 3 dos casos.
 
O suicídio é hoje a segunda principal causa de mortes de crianças e jovens em idade escolar (12 a 18 anos) nos EUA, ficando atrás apenas de acidentes.
 
O volume impressiona: a taxa de suicídios infanto-juvenis, segundo o governo americano, é maior que a soma das mortes por câncer, doenças cardíacas e respiratórias, problemas de nascimento, derrame, pneumonia e febre.
 
Pressão online
 
Chefe da ala de saúde comportamental do hospital pediátrico Cook Children’s, no Texas, a psicóloga Lisa Elliott diz que os dados recém-revelados “são absolutamente dolorosos, mas não são uma surpresa”.
 
“Nós precisamos tirar os estigmas da saúde mental”, diz a PhD, alertando para a incidência dos quadros entre menores de idade, e não só entre adultos. “Problemas de saúde mental têm que ser vistos pelos pais como qualquer doença, da mesma maneira que os problemas de coração são.”
 
Em coro com outros especialistas, ela afirma que o quadro se agrava pelo uso irresponsável de redes sociais, que pode gerar competitividade e uma busca por padrões de beleza e desempenho.
 
“As redes podem ter impacto negativo sobre a autoestima das meninas e isso aumenta o isolamento delas”, avalia Elliott.
 
“Quando notam que não têm uma vida tão perfeita ou glamourosa quanto a de outros, elas concluem que ‘algo anormal ou errado está acontecendo comigo’.”
Segundo a psicóloga, a sensação de invisibilidade nas redes impulsiona práticas ligadas ao bullying entre jovens de ambos os sexos.
 
“O anonimato traz uma desumanização, uma perda de empatia pelos outros, especialmente aqueles diferentes de nós. Assim perdemos a capacidade de respeitar as opiniões diferentes, o que infelizmente resulta em mais bullying e mais isolamento.”
 
À BBC Brasil, Eileen Kennedy-Moore, psicóloga e autora de diversos livros sobre saúde mental infantil, diz que não faz sentido proibir o acesso a redes sociais (“os celulares e tablets estão aí, não há como lutar contra isso”), mas que os pais precisam colocar “limites sensatos” na relação entre seus filhos e aparelhos eletrônicos.
 
“Adolescentes e crianças sempre tiveram a sensação de uma audiência imaginária, de que todos estão sempre olhando para eles”, conta a especialista, que vive e trabalha em Nova York.
 
“Com as redes sociais, a experiência de ser vigiado e julgado o tempo todo aumenta”, avalia.
 
Segundo Kennedy-Moore, os aparelhos eletrônicos “também precisam ser colocados para dormir, já que nada de bom acontece nesses telefones depois da meia-noite”.
 
“As relações online podem ser uma fonte de apoio e conforto. Pacientes de câncer, por exemplo, encontram grupos de apoio na internet que são maravilhosos”, diz Moore. “Mas amizades online não podem substituir as amizades cara a cara, e os pais precisam prestar atenção nisso.”
 
Economia e ‘contágio’
 
Daniel J. Reidenberg, diretor do Conselho Nacional para Prevenção de Suicídios, alerta para outras raízes associadas ao aumento dos suicídios infanto-juvenis.
“Há uma pressão extrema sobre esse grupo por competição, ambições e preocupações com o futuro”, diz.
 
“Crises econômicas também têm impacto, uma vez que alguns jovens se sentem um fardo para as famílias. Jogos, vídeos, TV e filmes também influenciam muito as mentes dos jovens. Outra chave para a questão são outros suicídios a que esses jovens expostos. O contágio do suicídio é real, e os jovens são particularmente sensíveis a ele”, diz o especialista à BBC Brasil.
 
Segundo Lisa Elliott, enquanto meninos que tentam cometer suicídio apelam para métodos mais violentos, como o uso de armas, os casos de meninas são normalmente associados ao excesso de substâncias controladas e drogas ilícitas.
 
“Adolescentes não entendem completamente as drogas que estão ingerindo e suas potenciais consequências. Isso pode resultar em overdoses acidentais”, alerta.
 
De acordo com os entrevistados, os pais que buscam ajuda profissional normalmente contam que encontraram menções a suicídio nos telefones ou cadernos dos filhos, ou perceberam mudanças de comportamento, como isolamento e afastamento dos amigos, irritabilidade, problemas de sono e em notas escolares e falta de interesse em atividades que antes agradavam.
 
“A tentativa mostra muitas vezes que as crianças querem dizer que estão muito bravas ou tristes, mas não sabem como articular isso”, avalia Kennedy-Moore. “E muitas pesquisas mostram que a maioria dos que tentam se suicidar acaba se arrependendo do ato.”
 
Para Elliott, os dados apontados pelas pesquisas não devem ser ignorados pelos pais – cujo maior erro costuma ser achar que histórias como as que abrem esta reportagem nunca acontecerão com pessoas próximas.
 
As referências a suicídios no noticiário, segundo a especialista, podem servir como oportunidade para conversas sobre o tema entre pais e filhos.
 
“Pergunte a eles por que acham que isso está acontecendo e se sentem algo semelhante”, diz. “Assim, você pode descobrir muito sobre o que eles ou seus amigos estão vivendo.”
 
A presença dos pais nas vidas das crianças e jovens é a estratégia mais eficaz, segundo os entrevistados.
 
“Muitas vezes, nós enchemos a agenda dos nossos filhos com atividades porque pensamos que é saudável, quando seria melhor ter mais tempo com relações humanas saudáveis e realmente gastar tempo em família com qualidade, sem dispositivos eletrônicos”, afirma Elliott.
 

Comissão debate criação da semana de conscientização contra o suicídio

semana de conscientização contra suicídio

A criação da Semana Nacional de Valorização da Vida será tem ade audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE). O debate, está marcado para a próxima terça-feira (8), às 11 horas, e contará com o Serviço de Língua Brasileira de Sinais (Libras), A audiência é interativa, com a participação dos internautas pelo portal e-Cidadania e pelo Alô Senado.

A Semana Nacional de Valorização da Vida está prevista no PLS 163/2017, do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). A intenção é contribuir para diminuição da incidência de suicídios no Brasil e para o combate e conscientização das possíveis causas, como o bullying, os transtornos mentais e os problemas familiares e sociais. A semana também tem o objetivo de inibir a automutilação e a exposição danosa às redes sociais, por meio do debate, da reflexão e da conscientização.

Foram convidados para a audiência o Coordenador-Geral de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Quirino Cordeiro Júnior; o coordenador-geral de Educação Ambiental e Temas Transversais da Educação Básica do Ministério da Educação, Felipe Felisbino; o presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), Humberto Corrêa, e a Cheila Marina de Lima, representante do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde do Ministério da Saúde.

COMO ACOMPANHAR E PARTICIPAR

Participe:
http://bit.ly/audienciainterativa
Portal e-Cidadania:
www.senado.gov.br/ecidadania
Alô Senado (0800-612211)

http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/08/04/comissao-debate-criacao-da-semana-de-conscientizacao-contra-o-suicidio

“Taxa de suicídio pode ser 20% maior do que mostram os dados oficiais”

subnotificação do suicídio
Especialistas estimam que cerca de 90% dos suicídios são evitáveis. Mesmo assim, uma pessoa se mata no mundo a cada 40 segundos e essa é a segunda maior causa de mortes entre jovens de 15 a 19 anos de idade, segundo a OMS. Dados como esse chamam a atenção para o problema de saúde pública que o suicídio representa dentro da sociedade.
 
Foi para entender melhor o funcionamento dos processos mentais envolvidos no suicídio que a GALILEU conversou com o psiquiatra Neury Botega. Neury é médico psiquiatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Uma de suas especialidades é o tratamento da ideação suicida e o impacto da depressão na saúde. Ele já escreveu livros como Crise Suicida: Avaliação e Manejo, Comportamento Suicida, entre outras obras consideradas referência no assunto no Brasil.
 
GALILEU: Existem estudos mostrando a relação de distúrbios mentais como depressão, bipolaridade e esquizofrenia com o suicídio?
 
Foram feitos muitos estudos realizados retrospectivamente, ou seja, depois da ocorrência do suicídio, com as vítimas. Tem uma compilação de vários deles feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nessas pesquisas foram entrevistados familiares, amigos, médicos e psicólogos de pessoas que se mataram e em 90% dos casos de suicídio havia um transtorno mental diagnosticável envolvido. Consideram-se transtornos mentais a depressão, a dependência de álcool, o transtorno bipolar e traços impulsivos e agressivos de personalidade fortes o bastante para caracterizar um transtorno de personalidade. Essa coleta de dados sobre várias centenas de suicídios mostram a constante associação do fenômeno com o transtorno mental. Exatamente por isso que o suicídio passou a ser uma das prioridades de prevenção da OMS.
 
Em qual dos transtornos o indíce de suicídio é maior?
 
Em metade dos casos é a depressão. Em segundo lugar vem o transtorno afetivo bipolar e em terceiro a dependência de álcool e outros drogas. Depois vem os transtornos de personalidade que tem como característica muita instabilidade de humor e impulsividade, seguido pela esquizofrenia.
 
Como a dependência de psicoativos é a terceira maior causa de suicídio, como é possível determinar a diferença entre uma morte proposital e uma acidental, como uma overdose por exemplo?
 
Pra gente afirmar que um caso foi suicídio a gente tem que ter alguma certeza da intenção letal da pessoa. Muitas pessoas encontradas vítimas de uma overdose dexam essa dúvida: será que foi um acidente ou foi feito propositalmente para levar à morte? Nesses casos, muitas vezes, aparece no atestado de óbito a seguinte descrição “morte com intenção indeterminada”.
 
Por isso acreditamos que a taxa de suicídio pode ser 20% maior do que mostram os dados oficiais. Porque em muitos atestados de pessoas que falecem por acidentes, afogamento e quedas, por exemplo, sabemos que o motivo pode ter sido o suicídio. Ainda que isso não apareça no documento. Isso acontece porque primeiro, não é toda localidade que tem um serviço de verificação de óbito. E segundo, mesmo quando temos esse serviço, para ter certeza de que se trata de um suicídio, é preciso ter indícios de que a vítima possuía alguma intenção de tirar a própria vida.
 
Quais são os processos neuroquímicos que levam ao suicídio?
 
Existem pesquisas que mostram como nos casos de suicídio em que houve muita impulsividade e agressividade no ato suicida existe uma maior chance de haver um distúrbio no sistema da serotonina. Nós já temos comprovações ao nível da biologia molecular demonstrando que nesses casos de muita impulsividade e agressividade há uma diminuição do funcionamento serotominésico. A serotonina é um neurotransmissor e o que condiciona o funcionamento do sistema serotominésico é uma série de genes.
 
O que temos nestes casos em específico é uma redução da função desse sistema. Por exemplo, pode haver déficit na produção de serotonina, déficit no transporte dela, e todos esses pontos são condicionados por um ou mais genes. É por isso também que poderíamos falar em uma propensão biológica herdada para traços de impulsividade e agressividade que levam indiretamente ao suicídio. é importante frisar que não dá pra gente falar em genes que causam suicídio, mesmo porque isso é um fenômeno muito complexo e nós evitamos falar em uma causalidade simples e única. O que temos condicionado biologicamente e geneticamente são esses genes, que são ativados ou desativados e que influem em sistemas de regulação do nosso humor e da nossa impulsividade.
 
Essas fatores, impulvidade, agressividade, são determinantes para que um paciente com depressão chegue ao ponto suicida, por exemplo?
 
É exatamente isso, quando vários fatores de risco vão se combinando, aí sim o perigo vai se aproximando. Um paciente com depressão, muito impulsivo, que começa a beber diariamente, vive sozinho, tem um avô que já se matou e foi traído pela esposa tem chances enormes de ter ideação suicida. Esses fatores vão se juntando e vão fazendo com que a pessoa sinta uma dor psíquica isuportável. Essa dor existencial é tão grande que o paciente só vê a morte como real saída.
 
Qual a porcentagem das pessoas que mostram sinais de comportamento suicida antes de realmente chegar ao ato?
 
Já temos algumas pesquisas norte-americanas mostrando como a porcentagem de jovens que tenta suicídio ao final de um período de poucos anos é maior naquele subgrupo que já relatou para os pesquisadores algum sinal de ideação suicida. Por exemplo, entre aqueles que chegam a planejar o suicídio, ao final de um ano 52% chegam a tentá-lo de verdade. As tentativas ocorrem mais frenquentemente nas pessoas que falam sobre morte, demonstram considerá-la uma opção. Isso fica mais forte ainda naqueles que fazem planos, pesquisam métodos. Falar em suicidio, fazer postagens sobre o encontro com o fim, idolatrar pessoas que se mataram, tudo isso nos dá um alerta para ficarmos atentos.
 
Existem remédios específicos para pacientes que apresentam ideação suicidda?
 
O que fazemos a curto prazo é receitar medicação para reduzir o grau de impulsividade, de agitação e de insônia. Dessa forma, podemos ganhar tempo para poder trabalhar com a pessoa em uma psicoterapia ou com medicamentos antidepressivos. Afinal, alguém que não consegue dormir, muito ansioso, muito impulsivo, tem mais chances de chegar ao ato em si em um momento de desespero. No médio prazo, tratamos com antidepressivos as depressões mais graves, pois a resposta desse tipo de droga demora em média duas semanas. A longo prazo existem os estabilizadores de humor. O principal é o lítio, que comprovademente diminui o número de tentativas de suicídio em 60% para pacientes com transtorno bipolar.
 
Uma educação emocional desde cedo seria útil na prevenção do suicídio?
 
Sim, nós já temos estudos mostrando que quando ensinamos crianças e adolescentes a lidar melhor com momentos dificies da vida, sob o ponto de vista emocional, esse grupo evolui melhor, tem menos tentativas de suicídio. Esse é o tipo de educação em que levamos em conta as necessidades emocionais, a necessidade de conversar em situações conflitantes. E isso pode ser feito em casa, em escolas. É preciso aurtoconhecimento para melhor suportar as angústias, os problemas. Um exemplo bom de atividade para treinar isso seria a dramatização de situações. Você fazer uma espécie de teatrinho na classe e discutir os sentimentos envolvidos, assim a criança vai percebendo como o outro se sentiu, aprende a empatizar e a criar mecanismos para lidar melhor com as dificuldades.
 
Que outras medidas funcionam na prevenção do suicidio?
 
De um mode geral, é preciso conscientizar as pessoas do risco de suicídio. Algo simples, que recomendo, é seguir essa sigla simples: o ROC. Primeiro, é preciso reparar no Risco. Fique atento aos sinais. Quando alguém fala em se matar, muda de comportamento, se isola, essa pessoa precisa urgentemente da sua atenção. O segundo passo é Ouvir. Ouvir com atenção, sem fazer julgamentos morais ou religiosos. Estar lá para escutar o que essa pessoa está precisando dizer. E o terceiro é Conduzir. Conduza a pessoa para um profissional de saúde mental, encorajando-a a pedir ajuda.