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Automutilação digital: cresce número de jovens que postam agressões contra si mesmos online

automutilação redes sociais
Uma nova tendência entre adolescentes americanos vem preocupando especialistas: a prática de postar, enviar ou compartilhar na internet mensagens abusivas sobre si mesmos, de forma anônima.
 
Em um estudo recente com 5.593 estudantes do ensino fundamental e médio nos Estados Unidos, com idades de 12 a 17 anos, um em cada 20 revelou já ter praticado o chamado auto-cyberbullying, ou automutilação digital.
 
A abrangência do problema surpreendeu os próprios autores do estudo.
 
“Esperávamos algo em torno de 1%”, diz à BBC Brasil o especialista em cyberbullying Justin Patchin, um dos autores.
 
“Foi surpreendente descobrir que entre 5% e 6% dos participantes já haviam praticado automutilação digital”, afirma Patchin, que é professor de Justiça Criminal da Universidade de Wisconsin-Eau Claire.
 
Segundo especialistas, assim como em casos de automutilação física, em que muitas vítimas ferem o próprio corpo com cortes, arranhões ou queimaduras, a automutilação digital costuma indicar um pedido de ajuda.
 
Entre os motivos citados pelos jovens entrevistados estavam baixa autoestima, busca por atenção, sintomas de depressão e o desejo de despertar uma reação nos outros.
 
“Na maioria das vezes, estão à espera de uma reação, querem ver se alguém vai ajudá-los, como seus amigo vão responder. Eles apenas querem atenção de alguma maneira”, observa Patchin.
 
O estudo, publicado na revista científica Journal of Adolescent Health, foi realizado em parceria com Sameer Hinduja, professor da Escola de Criminologia e Justiça Criminal da
Universidade Florida Atlantic.
 
Patchin e Hinduja dirigem o Cyberbullying Research Center, centro de pesquisas especializado em assédio virtual.
 
Suicídio
 
Casos de bullying cibernético em que agressor e vítima são a mesma pessoa ganharam atenção em 2013, com o suicídio da adolescente britânica Hannah Smith, de 14 anos.
 
Segundo sua família, Smith era alvo de abuso na rede social ASKfm. O site alegava que a própria garota havia enviado várias das mensagens abusivas contra si mesma, de forma anônima.
 
Após investigar o caso, a polícia concluiu haver evidências de que as mensagens realmente foram enviadas pela própria jovem.
 
Patchin lembra de dois casos semelhantes nos Estados Unidos.
 
“Em um deles, uma menina de 15 anos cometeu suicídio após sofrer bullying online e na escola. Depois, descobriu-se que muitas das mensagens abusivas haviam sido postadas por ela própria. Ela dizia que era feia e que deveria se matar”, relata.
 
Segundo Patchin, adolescentes vítimas de cyberbullying se mostraram oito vezes mais propensos a ter praticado automutilação digital. Vítimas de bullying na escola eram entre quatro e cinco vezes mais propensas.
 
“Não sabemos o que veio primeiro, se ser vítima de cyberbullying o faz cometer automutilação digital ou se, como você pratica isso, faz com que outros também postem abusos contra você. Mas sabemos que há uma relação”, observa.
 
Patchin relata que, em alguns casos, os estudantes disseram estar postando de forma anônima o que já havia sido dito ou postado sobre eles de maneira privada.
 
“Por exemplo, alguém está enviando mensagens cruéis e você está deletando, e ninguém mais vê essas mensagens, mas você quer tornar público o que está acontecendo. Então, posta os comentários você mesmo, de forma anônima, em uma página onde outros possam ver e, talvez, oferecer ajuda.”
 
Diferenças
 
Mais da metade (51,3%) dos participantes que admitiram ter praticado automutilação digital disseram ter feito apenas uma vez. Outros 35,5% revelaram ter postado mensagens abusivas sobre si mesmos algumas vezes, e 13,2%, várias vezes.
Jovens com histórico de uso de drogas, sintomas de depressão e automutilação física e aqueles que se identificaram como não heterossexuais se revelaram mais propensos a praticar automutilação digital.
 
Os pesquisadores encontraram algumas diferenças entre meninos e meninas. Enquanto 7,1% dos garotos admitiram a prática, o índice entre elas foi menor, de 5,3%.
 
Os motivos apresentados também revelaram diferenças: enquanto muitos dos meninos disseram que viam o comportamento como uma brincadeira e uma maneira de chamar a atenção, entre as garotas era mais comum citar depressão ou sofrimento emocional.
 
Segundo a especialista em comportamento digital de adolescentes Meghan McCoy, coordenadora de programas do Massachusetts Aggression Reduction Center (Centro de
Redução de Agressão de Massachusetts, em tradução livre), ligado à Universidade Bridgewater State, os resultados relatados por Patchin são consistentes com os observados em estudos realizados pelo centro.
 
Em pesquisas realizadas pelo centro com estudantes recém-ingressados na universidade sobre seu comportamento enquanto ainda estavam no ensino médio, entre 10% e 15% revelam já ter praticado automutilação digital.
 
“Observamos esse comportamento desde 2012. Os números se mantiveram estáveis nos últimos cinco anos, então não acho que estão aumentando. Acredito que seja algo sobre o que as pessoas só agora estão tomando conhecimento”, disse McCoy à BBC Brasil.
 
Assim como no estudo de Patchin e Hinduja, McCoy observa que entre os motivos citados pelos adolescentes entrevistados pelo centro está a busca por atenção e apoio. Ela também ressalta a forte relação entre automutilação digital e cyberbullying.
 
Para Patchin, é importante que pais, professores, e mesmo policiais investigando casos de cyberbullying mantenham a mente aberta sobre o que está ocorrendo e ofereçam apoio a quem está passando pela experiência, mesmo nos casos em que vítima e agressor são a mesma pessoa.
 

Leu um post suicida nas redes sociais? Saiba o que fazer

post suicida ajuda
“O que eu faço?”. A dúvida angustiada foi a primeira coisa que passou pela cabeça da tradutora paulistana Alessandra Siedschlag, 45 anos, ao ler no Facebook uma mensagem de despedida de Aline*. No post, a amiga de infância da tradutora deixava clara a intenção de se matar –“digam para minha filha que a amo”, foi o trecho que mais lhe chamou a atenção. Dos 60 amigos na rede social, só mesmo Alessandra não ficou parada. Primeiro tentou ligar para Aline que não atendeu o celular. Então chamou a polícia.
 
“Os policiais me informaram que eu deveria estar junto quando a viatura chegasse ao prédio. Só que eu morava do outro lado da cidade e tive medo de não aparecer a tempo para evitar o pior”, conta Alessandra, que pegou um táxi, desesperada.
 
“Chegando lá, o síndico não queria autorizar nossa ida ao apartamento, nem permitir que a porta fosse arrombada”. Depois de muita insistência, os policiais conseguiram subir e Aline foi encontrada no chão da sacada, desacordada. A tela de proteção da varanda do apartamento, no 13º andar, estava cortada.
 
“Ela foi levada para o hospital na própria viatura, não houve tempo nem para esperar uma ambulância. Lá foi atendida e sobreviveu”, recorda Alessandra, aliviada. “No dia seguinte, a Aline me agradeceu. Contou que havia sido um ato de desespero.”
 
Quem quer mesmo se matar manda aviso?
 
Mensagens como as de Aline vêm se tornado cada vez mais comuns nas redes sociais. São postagens em tom de desabafo, que sugerem a intenção de suicídio. Só este mês, três casos como o da amiga de Alessandra ganharam a mídia: dois em Santa Catarina e outro no Piauí. Felizmente, em todos o socorro chegou a tempo.
 
Segundo dados do Ministério da Saúde, um brasileiro comete suicídio a cada 45 minutos. No entanto, de acordo com o levantamento, 90% dessas mortes poderiam ser evitadas, se o resgate acontecesse em tempo hábil. Por isso, mensagens assim nunca devem ser ignoradas.
 
“Existe um mito de que quem realmente quer se matar não manda aviso. Mas todo comentário de suicídio deve ser levado a sério”, explica a psicóloga Karen Scavacini, do Instituto Vita Alere, de prevenção ao suicídio. “Em alguns casos, talvez seja mesmo um pedido de atenção. Mas é, sobretudo, a comunicação de um sofrimento extremo, que não deve ser desprezada.
 

É preciso acender a luz

processo de luto e suicídio

Como você pode se ajudar no processo do luto?

“Logo que iniciamos o projeto, entendemos que uma das primeiras queixas dos enlutados era a falta de paciência ‘das pessoas’ com seu processo de dor. Escutamos inúmeros relatos daqueles que se sentiram pressionados e apressados para ‘ficar bem’ logo. E por isso, constantemente, trazemos os pedidos de mais empatia e mais paciência para as nossas conversas aqui nesse site. Porém, esse nosso pedido não significa apatia ou desistência, e sim liberdade para que cada um possa seguir no seu ritmo e com suas próprias estratégias.

‘É preciso acender a luz’ vem não como uma imposição, mas como um chamado para que cada um busque coisas que lhe façam bem e sentido para seguir em frente. Ouvimos diversas vezes que, após os primeiros dias ou semanas de máxima atenção de amigos e familiares, chega aquele momento em que você se depara com um grande silêncio e precisa se cuidar mais do que ser cuidado. E como você mesmo pode se ajudar? – fica a pergunta. Porque ainda que tenhamos amigos e amores e terapeutas, o processo do luto é uma elaboração interna, subjetiva e individual. Levantar, se cuidar, pedir ajuda, não desistir da sua vida, do seu futuro, tentar, cair, levantar de novo – é o melhor que você pode fazer por si mesmo. Atos de coragem e de amor próprio que serão recompensados logo mais. Avante!”

http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2016/03/08/e-preciso-acender-a-luz/

O QUE POSSO FAZER PARA AJUDAR QUEM PENSA EM SUICÍDIO?

empatia suicídio
Pode ser que, em algum momento de nossas vidas, desconfiemos de que alguém próximo está pensando em suicidar-se em decorrência de um grande sofrimento. Diante dessa situação, o sentimento de impotência pode se fazer presente, fazendo-nos acreditar que não há como intervir, uma vez que a pessoa parece já ter decidido encerrar a própria vida.
 
Entretanto, ao contrário do que o senso comum tende a reproduzir, existem diversas maneiras de auxiliar essa pessoa.
Se há uma desconfiança, é importante que se converse diretamente com a pessoa que está sofrendo. Um diálogo aberto, respeitoso, empático e compreensivo pode fazer a diferença. Procurar saber como a pessoa está, o que tem feito ultimamente, como está se sentindo. O foco da conversa deve ser o outro, portanto, não é recomendável: falar muito sobre si mesmo, oferecer soluções simples para os problemas que a pessoa relatar e desmerecer o que ela sente.
 
Essa conversa pode obter melhores resultados se for feita em um lugar tranquilo, sem pressa, respeitando o tempo da pessoa para se abrir. Caso a pessoa se sinta à vontade para compartilhar o seu sofrimento, não é indicado: rechaçar (“Credo, isso é pecado!”), esboçar expressões de choque (“Não acredito que você tá pensando nisso!”) e reprimir, caso o choro venha (“Pra que chorar? Você sempre teve tudo do bom e do melhor!”).
 
A escuta ativa deve sempre estar presente nesses diálogos. Uma escuta ativa consiste em realmente ouvir e compreender o que o outro diz, não apenas esperar uma pausa para poder respondê-lo. Isso não significa, no entanto, deixar a pessoa falando sozinha. Algumas pontuações que podem ser feitas consistem em: fazer perguntas abertas; fazer um breve resumo do que a pessoa falou, de tempos em tempos, para que ela saiba que você está atento ao que ela diz; retornar a algum ponto que não tenha ficado claro e tentar, ao máximo, escutá-la sem julgamentos.
 
Oferecer suporte emocional e informar sobre a ajuda profissional, bem como se mostrar à disposição, caso ela queira conversar novamente, são pontos importantes. Se a pessoa falar claramente sobre os seus planos de se matar e parece estar decidida quanto a isso, é primordial que ela não seja deixada sozinha. Podem ser contatados os serviços de saúde mental e familiares/amigos da pessoa. Pode ser necessário que ela fique em um ambiente seguro, sendo auxiliada por um profissional.
 
Se você perceber que a pessoa não se sente à vontade para se abrir, deixe claro que você estará disponível para conversar em outras oportunidades. Você também pode indicar os serviços oferecidos pelo CVV, disponível em www.cvv.org.br, que trabalha para promover o bem estar das pessoas e prevenir o suicídio, em total sigilo, 24h por dia.
 

Verbena

sobreviventes do suicídio
Relato de um sobrevivente enlutado pelo suicídio.
Precisamos falar sobre o suicídio e o luto por suicídio.
 
“O nome dela era Marina, mas ela era muito mais que isso: era Bacashy, Orangehay, Assucena Sunstrider, Esparadrapo e muitas outras que não conheci ou não me lembro no momento.
Ela era minha melhor amiga.
 
Uma das poucas pessoas em que nenhum assunto era proibido e nenhum silêncio constrangedor. Ela conhecia boa parte dos meus demônios, e eu, alguns dos dela. Se não tínhamos apreço por essas características, também não as julgávamos. Aliás, por vezes nos reconhecíamos nos traços do outro. Algum dia alguém disse que éramos almas gêmeas e desde então passamos a nos identificar assim.Marina e Eduardo
Na primeira tentativa de suicídio, ela me avisou, era madrugada e eu só vi a mensagem no dia seguinte de manhã. A “carta”, que eu perdi, continha uma breve despedida e um pedido de desculpas.
 
Apesar disso, na derradeira noite, não houve nada exceto as dicas esparsas e vagas que suicidas costumam deixar: a despedida foi um abraço e o pedido de perdão, inexistente. Talvez porque não houvesse o que perdoar.
 
Acho que fui o último rosto amigo não-familiar que ela viu e isso me enche de uma honra e culpa absurdos. Por um lado é uma lembrança da nossa amizade, mas é também uma lembrança da minha impotência frente à toda situação.
 
Olhando pra trás agora, é possível ver todas as dicas que ela semeou no nosso último encontro: a súbita melhora, objetos pessoais dados como presentes e até mesmo a despedida.
 
O luto se manifestou em mim principalmente na forma de raiva e até hoje sinto muita raiva, talvez mais do que tristeza. Raiva do mundo, raiva da doença, raiva de quem não entende e acha que é fraqueza, raiva de mim e raiva dela. Parte de mim ainda tem raiva dela por ter me deixado sozinho, por não ter me avisado dessa vez e por não ter se despedido como deveria.
 
A ausência dela também trouxe uma solidão avassaladora. Obviamente ela não era minha única amiga, ainda tenho amigos ótimos para me suportar. Mas nenhum amigo é igual ao outro e consequentemente, nenhum é igual à ela.
A morte dela criou um vácuo e o vazio deixado me desesperava. Apesar de ainda estar cercado de pessoas que amo, não conseguia deixar de me sentir sozinho. Talvez até abandonado.
 
Ainda agora, meses depois do ocorrido, penso nela todos os dias. Parte de mim acha que isso me faz mal, parte de mim acha que devo isso a ela.
 
Eu a vejo em tudo que dividíamos o gosto: Scott Pilgrim, Calvin e Haroldo, Senhor dos Anéis, Cavaleiros do Zodíaco. Sempre que descubro uma webcomic, tenho vontade de mostrar a ela. Se em vida nós não conseguimos decidir uma música que representasse nossa amizade, agora isso é o que não falta.
 
Autor: Eduardo Silva
Melhor amigo da Marina”
 

Conheça Kevin Hines. Uma das milhares de pessoas que pularam da ponte Golden Gate, ele faz parte dos menos de 1% que sobreviveram a esse salto mortal.

Kevin Hines Suicídio
Conheça Kevin Hines. Uma das milhares de pessoas que pularam da ponte Golden Gate, ele faz parte dos menos de 1% que sobreviveram a esse salto mortal.
 
A ponte é um dos lugares mais usados do mundo para se cometer suicídio. Hines estima que mais de 2.000 pessoas já pularam para a morte desde sua inauguração.
 
Aqui está a história do homem que pulou da ponte Golden Gate de São Francisco e sobreviveu para contar sua história. Ele espera que seu sua história inspire outras pessoas a buscarem ajuda.
Kevin teve uma infância difícil, pois teve de viver em vários lares. Ele disse ao BuzzFeed, “Eu nasci prematuro, num ambiente de viciados em drogas.”
 
Eventualmente, ele foi parar no lar de Patrick e Debi Hines e sua vida entrou nos eixos, o que proporcionou uma infância melhor.
 
Aos 17, ele encarou vários problemas de saúde mental e começou a piorar.
 
“Eu simplesmente estava fora de controle.”
 
Ele disse ao BuzzFeed: “Eu lembro vividamente de ter escrito minha carta de suicídio.”
 
Hines foi de ônibus para a ponte Golden Gate, desceu e começou a andar lentamente pela calçada da ponte.
 
Ele disse: “As pessoas passavam por mim, até que uma mulher se aproximou de mim.” Ela pediu a ele para tirar uma foto dela e foi embora.
 
“Foi esse o momento em que eu disse ‘Ninguém se importa'”.
 
“A realidade era que todos se importavam, eu só não conseguia perceber.”
 
Kevin pulou da ponte e logo depois compartilhou dos mesmos pensamentos que os outros sobreviventes tiveram:
 
“No milésimo em que a minha mão soltou da grade, surgiu o arrependimento instantâneo.”
 
Ele disse ao BuzzFeed: “Em quatro segundos, eu caí por 120km/h, 25 andares, e atingi a água. Eu senti a maior dor física da minha vida.”
 
Após a queda, a Guarda Costeira resgatou Kevin da água e o levou a um hospital local.
 
No hospital, ele disse a Hines: “Pai, me desculpe”. Ele respondeu: “Não, Kevin, me desculpe.”
 
O quase suicídio de Kevin deixou uma marca nos membros de sua família que estará lá TODOS. OS. DIAS. Hines disse a ele que, toda vez que o telefone toca, sua primeira reação é perguntar “Kevin está vivo?”.
 
“Eu causei esse impacto no meu pai”, disse ele.
 
Kevin ainda está recebendo tratamento para doença mental, mas agora ele tem mecanismos melhores para lidar com isso.
Você não está sozinho.
 
“É ok não estar bem. Não é ok não pedir ajuda para alguém.”
 
“A recuperação acontece. Eu sou a prova viva.”
 
Se você estiver tendo uma crise, ligue para o Centro de Valorização da Vida no telefone 141.
 

Suicídio de homossexuais: “Aprendi que era motivo de ir para o inferno”

suicídio de homossexuais
Rita*, 20 anos, é estudante de psicologia. Tentou se matar duas vezes. A primeira, aos 16 anos e a segunda, aos 18. A universitária cresceu em uma família religiosa, que, nas palavras dela, sempre riu e fez piada sobre lésbicas e gays. O choque entre a criação recebida e a descoberta da própria homossexualidade tirou seu rumo.
 
“Não sei quantas vezes me achei impura ou possuída por algo maligno, já que, desde pequena, aprendi que o que não é ‘natural’ é motivo para ir para o inferno. Mas o inferno estava em mim”, conta.
 
No Brasil, em 2017, 44 jovens cometeram o suicídio. É sobre esse tema que vai se debruçar um estudo em andamento conduzido pelos pesquisadores Renan Antônio da Silva, cientista social e doutorando pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), Luiz Mott, antropólogo e fundador do GGB (Grupo Gay da Bahia), e Toni Reis, ativista e doutor em educação.
 
“Por ser um trabalho nacional, mostraremos o quanto o preconceito, a não aceitação e a pressão familiar e religiosa matam homossexuais”, afirma Silva. A pesquisa deve ser publicada no primeiro semestre de 2018.
 
“Quando me abri, dizendo que eu era lésbica e nasci assim, os meus pais ficaram um mês sem falar comigo”, fala Rita.
 
Problema de saúde pública
 
Segundo Renan Antônio da Silva, o levantamento será feito a partir de dados provenientes do GGB e do site “Quem a Homofobia Matou Hoje”. Essa página tem dados desde 2011, recebidos de delegacias, ONGs e grupos LGBTTs de todo o país.
 
“Com esse estudo, queremos identificar o suicídio como um fato social, de repercussões subjetivas e que se caracteriza como um importante problema de saúde pública”, diz Silva, acrescentando que a intenção é que o levantamento sirva de base para a elaboração de políticas públicas para a prevenção do problema.
 
De acordo com o cientista social, no exterior, trabalhos com essa temática foram realizados e apontaram como a não aceitação da orientação sexual pode ser fator de risco para o suicídio.
 
Renan Antonio Silva cita estudo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, de 2012, que concluiu que jovens homossexuais têm cinco vezes mais chance de se matar do que os heterossexuais.
 
Segundo o psiquiatra Daniel Mori, colaborador do AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual), do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), o desrespeito ou a não aceitação de uma determinada orientação sexual pode levar a pessoa a ter sentimentos relacionados à exclusão, culpa, medo, tristeza e inadequação.
 
“Todos esses sentimentos podem levar ao adoecimento ou à instalação de um transtorno psiquiátrico. Alguns, como o Transtorno Depressivo, se não corretamente tratados, podem levar a pensamentos de morte, ideação, planejamentos e tentativas de suicídio. Portanto, o preconceito contra outras orientações sexuais que não a heterossexual pode ser fator de risco para o aumento da vulnerabilidade ao suicídio”, declara Mori.
 

Uma dor de que não se fala: Bahia registra um suicídio por dia em 2017

suicídio dor que não se fala
“Vai passar… ”, “É assim mesmo…” eram respostas que Amanda Monteiro ouvia quando contava como se sentia. Mas nos momentos em que estava triste e angustiada, achando que não tinha lugar no mundo, a jovem de 22 anos não queria escutar nada.
 
“Só queria não me sentir sozinha”, lembra a estudante de enfermagem. O sofrimento era tanto que ela tentou suicídio três vezes em duas semanas. “Nos momentos de dor, a gente não quer que o outro esteja ali. A gente quer que ele seja: seja amável, seja gentil”, destaca, seis meses depois.
 
Diogo Garrido preferia guardar tudo para si, por receio que seus sentimentos fossem encarados como drama. Nas vezes em que falou, o estudante de Letras escutou dos amigos e da família: “É uma fase, vai passar”.
 
Após duas tentativas de suicídio e três meses de internação em uma clínica particular, o jovem de 24 anos faz questão de contar o que vem enfrentando para alertar outras pessoas sobre o tema: “dor não tem régua, não existe uma medida universal. Cada pessoa sabe o que está passando”.
 
O suicídio ainda é tabu, embora represente a causa de morte de aproximadamente um milhão de pessoas no mundo por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Na Bahia, a dor que não se fala mata uma pessoa por dia. Até 9 de novembro de 2017, o estado registrou oficialmente 373 suicídios – 23% dos casos foram cometidos por jovens entre 15 e 29, como Amanda e Diogo, e 9% por idosos acima de 70 anos.
 
No Brasil, suicídio é a terceira causa de morte na juventude, atrás apenas de homicídios e acidentes de trânsito, de acordo com o Mapa da Violência (2014).
 
Os idosos representam as maiores taxas no país, com 8 suicídios para cada 100 mil habitantes. Entre 2002 e 2012, o Brasil passou de 4,4 para 5,3 suicidas por 100 mil habitantes, o que representa um crescimento de 20,3%. Em 2012, a Bahia tinha uma taxa de 3,4 suicídios por 100 mil habitantes, com um aumento de 92% no mesmo período.
 
Em 2016, foram computados no estado 412 suicídios de pessoas de distintas classes sociais, gêneros, escolaridades e profissões. A taxa foi de aproximadamente 2,7 suicidas por 100 mil habitantes, mas isso não significa que a luz amarela deva ser desligada.
 
Os números, inclusive, podem ser mais altos, pois nem todas as ocorrências são notificadas, o que é obrigatório no sistema de saúde brasileiro desde 2014. Além disso, alguns casos entram em outras estatísticas, como acidente de trânsito, por exemplo.
 
Sinais
Muitas mortes por suicídio poderiam ser prevenidas se os sinais e fatores de risco associados ao ato fossem discutidos abertamente, não somente no Setembro Amarelo – campanha que há três anos alerta os brasileiros sobre a necessidade de se falar sobre o tema.
 
“Os primeiros sinais são manifestações de sofrimento psíquico. A pessoa fica triste, mais isolada, não necessariamente chorando. Muda o comportamento de forma brusca, passa a ser agressiva, irritadiça. É importante estar atento”, diz a psicóloga Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Prevenção do Suicídio (Neps), do Centro Antiveneno da Bahia (Ciave), do Hospital Roberto Santos.
Amigos e parentes próximos terminam tendo os primeiros contatos com as ideações suicidas de um indivíduo que sofre uma dor existencial. Quando isso acontece, é importante acolher a pessoa e estar disposto e preparado a ouvir sem julgamentos as intenções de tirar a própria vida. Elas aparecem direta ou indiretamente, por meio de frases como “se pudesse, eu dormia e não acordava”, “minha vida não tem sentido”, “eu sou um fardo” ou “morrer seria um alívio para mim”.
 
Especialistas indicam que a melhor maneira de lidar com a questão é perguntar da forma mais direta possível: “Onde está doendo?”, “O que está acontecendo com você?” e “Como eu posso te ajudar?”. E, em seguida, buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico para o indivíduo.
 
“A pessoa com ideação suicida está com pensamento distorcido em relação a si, à realidade, à sociedade. Não é uma coisa abrupta. Isso pode começar de maneira insidiosa, pouco aparente e, se não é tratada de pronto, vai ficando aparente, incapacita para as atividades da vida”, analisa Sandra Peu, diretora da Associação Psiquiátrica da Bahia (APB) e coordenadora do Setembro Amarelo em Salvador.
Apesar de existir uma correlação grande entre suicídio e doenças mentais, como depressão, transtorno de humor bipolar, dependência de álcool e outras drogas psicoativas, não se pode determiná-las como as únicas causas.
 
“Nem todo mundo que se mata está deprimido, nem todo deprimido se mata. Nem todo mundo que quer morrer, quer se matar. Na verdade, a pessoa quer viver. Ela quer sanar o sofrimento, uma dor desmedida na vida que tem. É esse o tempo que a gente tem para trabalhar, para cuidar desse sujeito, para que ele possa enxergar outras formas de vida”, afirma Soraya.
 
Nem sempre o caminho até o serviço de psiquiatras e psicólogos é rápido e simples. Além dos estigmas sociais, a própria rede de saúde pública é restrita.
 
Fila de espera
Na Bahia, o Neps é o único órgão especializado em prevenção do suicídio. Fundado há 10 anos, o núcleo atende cerca de 300 pessoas e neste momento conta com fila de espera.
 
O trabalho que começou com o atendimento a pacientes que davam entrada no hospital por tentativa de suicídio, hoje alia o tratamento convencional psicoterápico e médico com ações de prevenção que trabalham as possibilidades de produção de quem já tentou suicídio, como leitura, rodas de leitura, cinema e jornal, envolvendo a rede em torno delas.
 
Antes de fundar o Neps, Soraya Carvalho trabalhou 16 anos atendendo pessoas que já tinham tentado suicídio no Roberto Santos.
 
“A reincidência baixou muito. Um dos fatores de risco mais importantes a considerar no suicídio é a tentativa de suicídio anterior. Quem quer se matar avisa”, destaca Soraya.
E os relatos de quem é atendido pelo núcleo mostram que é possível acreditar na vida, apesar das dores existenciais. “Depois de todos esses anos [de sofrimento], eu só vim realmente ter esperança de que eu posso ter uma vida normal, mesmo com os traumas e as dores que eu já passei, quando conheci o Neps e outras pessoas que têm problemas e transtornos semelhantes ao meu”, conta Amanda, que concilia o tratamento com as aulas na Universidade Federal da Bahia (Ufba).
 
“Isso tirou o sentimento de solidão. É o mais forte e mais recorrente, como se só você passasse por aquilo tudo. Quando cheguei, encontrei um espaço que me mostrou que não, que eu não sou a única, que existem outras pessoas como eu. E outras pessoas que estão lidando com isso há mais tempo que eu. Isso me mostra uma possibilidade de vida. Sim eu posso viver”, afirma a jovem de 22 anos.
Sobreviventes
A assistência também deve ser dada aos sobreviventes, denominação dada a parentes e amigos de quem comete suicídio, além daqueles que não conheciam as vítimas, mas lidam de alguma forma com a morte delas.
 
“Depois que acontece, todo mundo acaba vendo os indícios que não via. Aí começa a desenvolver teorias, perceber o que não notava”, conta o produtor Murilo Fróes, que perdeu um amigo de mais de 15 anos para o suicídio. “Ele sempre foi uma pessoa muito fechada, reservada e ninguém notou uma mudança de comportamento. Eu conhecia uma pessoa que a própria família não sabia que existia”.
 
A jornalista Paula Fontenelle terminou se tornando uma especialista no tema depois que seu pai se matou. Em 2008, ela lançou o livro Suicídio: o futuro interrompido e no site www.prevencaosuicidio.blog.br ajuda pessoas a enfrentarem a questão, sejam elas familiares ou quem tem a dor existencial.
 
“O tabu dificulta vivenciar o luto de maneira saudável. É diferente de outros porque a gente não tem com quem falar. Ninguém sabe o que dizer e o silêncio impera. O luto precisa ser vivenciado e parte disso é exprimir sua dor. Se ninguém te pergunta ou ouve, a dor cresce dentro de você”, afirma Paula.
“Ouvir cuidadosamente, sem julgamentos, com compaixão. E deixar que o outro te dê o limite de até onde pode ir. Mas não apenas partir do pressuposto de que a gente não quer falar”, reforça Paula, que atualmente faz mestrado na George Fox University, em Portland (EUA), pesquisando o tema tratamento de trauma e prevenção ao suicídio.
 
Solidão
Muitas pessoas com sentimento de solidão encontram no Centro de Valorização da Vida (CVV) um apoio. Presente há 29 anos em Salvador, o serviço presta atendimento 24 horas a pessoas com qualquer tipo de conflito, por telefone (custo de ligação local, em breve será gratuita para todo o país por meio do 188 ) e chat na internet. Sem, no entanto, substituir o acompanhamento psicológico. De forma sigilosa e anônima, o indivíduo telefona e conversa com um voluntário sobre qualquer assunto.
 
“O voluntário do CVV é um amigo provisório naquele momento. É como um espelho, no qual a pessoa vê sua imagem refletida e pode pensar o que está acontecendo com ela e encontrar seu caminho, a decisão que precisa tomar, qual ajuda terá”, explica Josiana Rocha, que atua há 27 anos na organização.
 
Em Salvador, o CVV conta com 41 voluntários, que trabalham cinco horas, uma vez por semana. “Qualquer um pode se voluntariar, não é necessário ser da área de saúde, nem ter formação acadêmica. Basta ter disponibilidade de tempo e doação de calor humano”, enfatiza a voluntária. Interessados em se voluntariar devem procurar o CVV e fazer cadastro.
 
ONDE BUSCAR AJUDA:
Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (Neps): 71 3116-9440, em horário comercial
Centro de Valorização da Vida (CVV): 71 3322-4111 ou 141 (capitais) / www.cvv.org.br
 
LOCAIS COM ATENDIMENTO PSICOLÓGICO E PSIQUIÁTRICO GRÁTIS OU DE BAIXO CUSTO:
NAPSI – Núcleo de Atendimento Psicológico
Av. Ademar de Barros, 343, Ed. Julio Call, sala 108 – Tel.: 3247-5020. Psicodiagnóstico, psicoterapia, orientação profissional, psiconcologia.
 
CEFAC – Centro de Estudos de Família e Casal
Parque Lucaia, Ed. WM – Tel.: 3334-3150 Psicoterapia individual, conjugal e familiar.
 
CECOM – Centro Comunitário Batista Cleriston Andrade
Rua Lord Cockrani, Garibaldi – Tel.: 3235-8114. Atendimento individual e em grupo.
 
CCVP – Complexo Comunitário Vida Plena
Rua Artur Gonzales (fim de linha de Pau da Lima).
 
COFAM – Centro de Orientação Familiar
Av. Joana Angélica, 79, Pavilhão Julia Carvalho, Internato Nossa Sra. de Misericórdia – Pupilleira. Tel: 3242-5959. Atendimento de psicoterapia individual e em grupo uma vez ao mês. Não cobra taxa.
 
Lar Harmonia
Rua Dep. Paulo Jacson, 560 – Piatã. Tel.: 3286-7796, ramal 119. Psicoterapia individual, em grupo, familiar e orientação profissional. Não cobra taxa.
 
Centro de Valorização da Vida
R. Luis Gama, 47 – Nazaré – Tel.: 3322-4111; 3244-6936 Atendimento por telefone 24 horas e pessoalmente das 7h às 18h.
 
IJBA – Instituto Junguiano da Bahia
Alameda Bons Ares, 15, Candeal Salvador – Bahia. Marcação de Consultas: (71) 3356-1645
 
Faculdades
BAHIANA
Av. Dom João VI, 275 – Brotas. Tel.: 3276-8259 Cadastro por telefone em janeiro e em junho. Não é cobrada taxa.
 
UNIFACS – NEPPSI
Rua Ponciano de Oliveira, 126, 1º andar. Av. Anita Garibaldi, Rio Vermelho. Tel.: 3330-4677 / 4678 Cadastro por telefone. Psicoterapia individual, grupal e familiar.
 
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Estrada de São Lázaro, 170, São Lázaro – Tel.: 3235-4589. Cadastro por telefone no inicio de cada semestre. Psicoterapia e Orientação Profissional.
 
Ruy Barbosa
Rua Theodomiro Batista, 422 – Rio Vermelho. Tel: 3334-2021 / 3205-1745. Psicoterapia individual, grupal, familiar e orientação profissional.
 
UNINASSAU: inscrição online para atendimento psicológico de adultos no seguinte link – http://bit.ly/2jj8ulF
 

Suicídio é a quarta causa de morte entre jovens no Brasil

suicídio jovens sinais
O Saúde sem Complicações recebe a professora Kelly Graziani Giacchero Vedana, do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, para falar sobre suicídio entre jovens. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que essa foi a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em 2014. No Brasil, é a quarta causa na mesma faixa etária de acordo com o Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM) desenvolvido pelo Ministério da Saúde.
 
De acordo com a professora, a adolescência é um período complexo na vida, porque o indivíduo passa por transformações na relação com ele mesmo e com as pessoas que estão à sua volta e, também, é momento de testar limites, desenvolver capacidades para controlar impulsos, tolerar frustrações, lidar com emoções e descobrir a própria identidade. “Nem sempre o indivíduo tem facilidade de lidar com essas mudanças e de se adaptar às tarefas que são inerentes a essa fase de desenvolvimento” , afirma.
 
Assim, diz a professora, muitos pais e professores têm dificuldade em diferenciar o sofrimento típico da idade de características que merecem mais atenção. Ela também alerta que muitas questões que são intensas, nessa fase, não são para os adultos; por isso, é importante ter empatia para compreender e estar atento às manifestações do jovem.
 
Muitas das causas do suicídio e do comportamento suicida podem estar ligadas a fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Entre eles os transtornos mentais, uso de drogas, situação de violência, relações interpessoais insatisfatórias, isolamento social, impulsividade e ansiedade.
 
A professora ressalta que cada caso tem sua individualidade, mas é necessário que os pais estejam em contato com o jovem para saber seus planos de futuro e perceber a sua satisfação com a vida. “Um dos sinais de que o jovem pode estar em sofrimento é a mudança comportamental, que pode ser usada como recurso para lidar com a situação. Esse novo comportamento pode estar ligado a mudanças no corpo, automutilação, envolvimento com briga ou drogas e negligência com o autocuidado.”
 
Outros sinais de alteração no comportamento são as ações de desesperança e desespero. Entre as frases mais comuns ditas por jovens com pensamento suicida estão “queria sumir”, “as pessoas estariam melhores sem mim” e devem ser usadas como alerta. A professora chama a atenção para o fato de que muitos desses jovens tentam deixar assuntos pessoais em ordem, doar coisas ou se despedir.
 
Ela conta que em um de seus estudos analisou postagens no Tumblr, plataforma de blogging, e percebeu que os conteúdos são pró-suicidas e não preventivos. Entre os posts mais populares estão mensagens de sofrimento emocional intenso e intolerável, automutilação, falta de esperança e idealização da morte e do suicídio. Além disso, falam da dificuldade em procurar ajuda e, apesar de parecer contraditório, eles buscam ajuda na internet, mas têm dificuldade em procurar no mundo real.
 
 

Fatores de Risco e Sinais de Alerta

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O que leva uma pessoa ao suicídio?
Não há uma causa única para o suicídio. Suicídio na maioria das vezes ocorre quando acontecimentos estressantes na vida de uma pessoa excedem sua capacidade e suas habilidades de enfrentá-los; sendo essa pessoa, em geral, alguém que sofre de uma condição de saúde mental. A depressão é a condição mais comum associada com o suicídio e o que acontece, frequentemente nesse caso, é não ser diagnosticada ou tratada. Condições como problemas de depressão, ansiedade e o uso abusivo de drogas, aumentam o risco de suicídio. No entanto, é importante afirmar que a maioria das pessoas que gerenciam ativamente seus problemas de saúde mental levam normalmente a suas vidas.
 
Sinais de alerta de suicídio
Algo para se prestar atenção quando existe a preocupação se uma pessoa pode ser suicida é a ocorrência de uma mudança drástica no comportamento ou a presença de comportamentos inteiramente novos. E essa preocupação deve, de verdade, aumentar, se o comportamento novo ou modificado está relacionado a um acontecimento doloroso, a uma perda ou mudanças na vida. A maioria das pessoas que tiram suas vidas apresentam um ou mais sinais de alerta, seja através do que dizem ou do que elas fazem. Preste atenção!
 
 
Conversa
Se uma pessoa falar sobre:
Estar sendo um fardo para os outros
Que está sentindo-se presa
Experimentando uma dor insuportável
Não tem nenhuma razão para viver
Matar-se
 
 
Comportamento
Atitudes que podem a chamar a atenção, incluem:
Aumento do uso de álcool ou outras drogas
Procurando uma maneira de se matar, como a busca on-line por formas ou meios
Agir de forma arriscada
Deixar de lado atividades costumeiras
Isolar-se da família e amigos
Dormir exageradamente ou muito pouco
Visitar ou chamar as pessoas para despedir-se delas
Agir de forma mais tempestuosa ou agressiva
 
 
Humor
As pessoas que estão pensando em suicídio muitas vezes exibem um ou mais dos seguintes afetos:
Depressão
Perda de interesse
Raiva
Irritabilidade
Humilhação
Ansiedade
 
Fatores de Risco de Suicídio
Os fatores de risco são características ou condições mais específicas que quando presentes aumentam a chance de uma pessoa cometer suicídio.
 
Fatores de Saúde
Condições de saúde mental
Depressão
Bipolaridade
Esquizofrenia
Transtorno de personalidade borderline ou antissocial
Transtorno de conduta
Distúrbios psicóticos ou sintomas psicóticos no contexto de qualquer distúrbio
Os transtornos de ansiedade
Desordens de abuso de drogas
Condição e / ou dor aguda ou crônica de saúde
 
Fatores Ambientais
Os eventos estressantes que podem incluir uma morte, divórcio ou perda de emprego
Fatores de estresse prolongado que pode incluir assédio, intimidação, problemas de relacionamento, e o desemprego
O acesso aos meios letais incluindo armas de fogo e drogas
A exposição ao suicídio de outra pessoa ou à noticiário jornalístico sensacionalista de suicídio
 
Fatores Históricos
Anteriores tentativas de suicídio
História familiar de tentativa de suicídio
 
 
Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda ligue para o número do CVV: 141 e procure ajuda especializada.
 
 
Texto original: Risk Factors and Warning Signs
http://afsp.org/about-suicide/risk-factors-and-warning-signs/
 

A família descobriu, depois do suicídio, o bullying que Karina sofria

suicídio bullying adolescente
No dia 7 deste mês Karina deixou essa vida. Enforcou-se no quintal de casa e foi encontrada horas depois pela mãe. A dor que sentia, as agonias de uma adolescente marcada pelo bullying e pelo discurso de ódio de colegas da escola só foram descobertas pela família depois, quando em meio ao sofrimento se depararam com o desrespeito à imagem da jovem. Neste sábado, 10 dias depois da morte, uma passeata na cidade onde ela vivia, Nova Andradina, vai alertar sobre os riscos que o bullyng representa.
 
Karina tinha 15 anos quando se foi, mas para a família, que agora tenta entender tudo que aconteceu, o sofrimento da menina começou um ano antes, quando conheceu um rapaz, na época com 17 anos. Do relacionamento, a adolescente viu a intimidade exposta, contada de boca em boca pelas pessoas com quem convivia diariamente. Viveu o fantasma do vazamento de fotos, em temos de propagação instantânea pelas redes sociais.
 
A menina estudava na Escola Nair Palácio de Souza, em Nova Andradina – a 300 quilômetros de Campo Grande, e de tarde fazia curso técnico em administração. Vivia entre a casa do pai e da mãe, que são separados.
 
“Há uns dois meses atrás ela me perguntou se achava que ela era vagabunda. Me contou que não era mais virgem, falei que isso era normal e aí soube que esse rapaz tinha espalhado o fato. Mas não sabia de foto, isso só descobrimos depois, quando ela morreu”, contou o pai de Karina, o bacharel em direito Aparecido de Souza Oliveira, de 47 anos.
 
Os sinais da jovem de que algo não estava bem eram mínimos segundo o pai, e só começaram a de fato aparecer nos últimos dias. “Há 20 dias mais ou menos fui chamado na escola, me falaram que ela havia tomado remédio na casa de uma amiga, eu não sabia que remédio era esse. Ela me contou que não queria mais morar aqui, que queria sair da escola”, lembra Aparecido.
 
De férias, Aparecido começou a se preparar para a mudança, iria voltar a Paranaíba, onde se formou em Direito, e junto levaria Karina. Ela tinha o sonho de se formar na mesma carreira do pai, virar delegada e na cidade começaria a se preparar para a faculdade. Nesse intervalo, a tragédia encontrou a família.
 
Foi só depois da morte de Karina que os pais descobriram a proporção do que a menina sofria. Mesmo depois de algo tão trágico quanto o suicídio, mensagens de ódio passaram a circular nas redes sociais, colegas de escola afirmando que a morte não mudariam o fato de não gostarem da menina, a chamando de “cão”. Críticas sobre o cabelo crespo, que ela costumava alisar, sobre o jeito da adolescente chegaram ao conhecimento dos pais.
 
“Eu não sabia que estava acontecendo isso, que essa dor dela era tão grande a esse ponto. Que uma pessoa que ri com você, tirar foto com você, sofria tanto. O mundo deles é tão fechado e geralmente eles não contam, acham que podem resolver sozinhos”, lamentou Aparecido.
 
Foto até depois da morte – Aprendendo a lidar a com a perda, a família se deparou com a imagem de Karina sendo exposta mais uma vez. Imagens do cenário de sua morte foram compartilhadas e exibidas em grupos de WhatsApp. “Mandaram uma foto para a irmã dela, em Lins (SP). Ela passou mal, precisou ficar internada”, conta o pai.
 
Tudo foi levado à polícia. As mensagens de ódio, a exposição da morte, as possíveis causas do desespero que levaram a adolescente a tirar a própria vida. Como homenagem, e também uma mensagem de alerta, os parentes de Karina organizam uma passeata, que vai acontecer neste sábado (18).
 
“Eu não tive nem tempo de salvar ela. Essa passeata, que tem foco nos jovens, é para que eles tomem conhecimento do mal que essas atitudes causas e também para que eles respeitem a pessoa após a morte. É em nome da paz, do amor, um não ao ódio. Porque as políticas públicas estão sempre na mesma, não estão conseguindo lidar com o suicídio, que está sempre aumentando”.
 
Na escola que Karina estudava, os alunos receberam atendimento psicológico, uma maneira, segundo Aparecido, de ajudar aqueles que podem estar passando pelo mesmo problema da filha.
 
Investigação – A morte da adolescente é investigada pela 1ª Delegacia de Polícia Civil de Nova Andradina. Segundo o delegado responsável pelo caso, Luiz Quirino Antunes Gago, alunos da Escola Nair Palácio de Souza, parente e amigos de Karina estão sendo ouvidos. A polícia aguarda o resultado dos laudos para confirmar as circunstâncias da morte.
 
Ainda de acordo com o delegado, mesmo com a comprovação do bullying, dificilmente será possível comprovar a ligação com a morte. “O Código Penal considera crime induzir ao suicídio, mas para isso a pessoa tem que ter agido diretamente. Nesses casos é difícil fazer essa ligação, mas vamos investigar se alguém teve responsabilidade direta na morte”, explicou.
 
Um boletim de ocorrência por vilipêndio a cadáver, cometido por quem divulgou as imagens de Karina já morta, também foi aberto pela Delegacia Regional da cidade. A pena para esse tipo de crime é de 1 a 3 anos de detenção e multa aos acusados.
 
“Queremos entender o porque isso começou. Se foi quando as fotos íntimas foram divulgadas e até se o bullying tem ligação com isso”, explicou o Aparecido, que agora tenta seguir a vida e usar a morte de filha como um alerta a todos os outros pais.
 
Prevenção – O CVV (Centro de Valorização da Vida) funciona como um canal de prevenção ao suicídio. Pessoas que pensam em tirar a própria vida podem fazer contato pelo telefone, pelo número 141, e-mail ou Skype, e até pessoalmente. Os voluntários estão dispostos a ouvir e o sigilo é garantido.
 

Após tragédia, tentativas de suicídio têm salto de 67%

mariana e suicídio
MARIANA. Aos 64 anos, José Caetano lamenta não poder desfrutar dos banhos nas cachoeiras de Bento Rodrigues. Antônio Augusto, 44, ainda chora a perda de suas orquídeas. A filha dele, Ana Carolina, 13, até outro dia mal saía de casa e tirou a primeira nota vermelha no colégio, triste pela saudade dos cachorros e pelo trauma de ter visto o tsunami de lama levar de uma só vez toda a vida de uma comunidade.
 
Com o rompimento da barragem da Samarco, há exatos dois anos, a vida de cerca de 1.200 atingidos mudou da noite para o dia. Obrigados a deixar o local de moradia, foram recebidos na área urbana com o estigma de “povo da lama”, relação que ficou ainda mais conturbada com o aumento do desemprego em Mariana, na região Central, de 5% para 23%, após o fechamento da mineradora.
 
A imputação de culpa sobre as vítimas e as agruras da nova vida fizeram aumentar o consumo de álcool e medicamentos. Cerca de 10% dos atingidos sofrem com algum grau de depressão, segundo a Secretaria Municipal de Saúde de Mariana. Antes da tragédia, não passava de 30 o número de moradores dos distritos atendidos pelas equipes de saúde mental. “Houve um adoecimento da população, que teve seu modo de vida alterado”, diz o coordenador da Rede de Atenção Psicossocial de Mariana, Sérgio Rossi.
 
Depressão. Adoecimento que atingiu também quem já vivia em Mariana e viu de perto o desastre e a economia afundarem. Números do Estado mostram aumento de 67% nas tentativas de suicídio na cidade após a tragédia. Em 2015, foram 88; no ano seguinte,147; e, neste ano, até 25 de outubro, 91.
 
“Grande parte possivelmente tem ligação (com o desastre)”, afirma o subsecretário de Estado de Vigilância e Proteção à Saúde, Rodrigo Said, que atenta para a maior sensibilidade das equipes de saúde no registro dos casos, o que também pode ter contribuído para o aumento de notificações. A Prefeitura de Mariana diz que não há registro de suicídio e tentativa entre os atingidos, mas reconhece casos graves em que eles se cortaram.
 
Antônio Augusto não conseguiu se acostumar com o apartamento de 60 m². “A vontade era de ficar chorando, chorando, chorando… Qualquer coisinha era motivo”, diz com a caixa de antidepressivo em mãos.
 
As aulas de violão trouxeram um pouco da paz que José Caetano precisava. “O que mais fazia era chorar, por tudo o que perdi e vi meus amigos passarem. Agora, é menos frequente, mas, quando relembro, a crise de choro vem”.
 
A Fundação Renova afirma que vai avaliar os dados e ver “se precisa fazer mais do que tem sido feito”. “Essas pessoas tiveram o rompimento de alguns vínculos sociais, e o reassentamento deve trazer esperança”, diz Albanita Lima, do programa de Saúde e Proteção Social. A previsão de entrega do novo Bento é março de 2019.
 
“É ruim ficar preso. Aqui a gente entra e fecha a porta. Em Bento, ela ficava aberta esperando vizinho.” José das Graças Caetano (Zezinho do Café)
 
Pesquisa. Pesquisadores da Medicina da UFMG farão um estudo sobre a saúde mental dos atingidos. “Os danos materiais e ambientais foram quantificados mas o dano moral e psíquico ainda não foi mensurado”, afirmou o coordenador da pesquisa, Frederico Garcia.